Oito
municípios superaram 1,5ºC de
elevação em relação à temperatura média daquela registrada nos últimos 80 anos
Por Alvaro Britto
Se o calor no mundo foi recorde no ano passado, com o planeta
superando pela primeira vez 1,5ºC de elevação em relação à temperatura média do
período pré-industrial —crítica para o equilíbrio climático —, em 30 cidades do
Brasil a média de 2024 ficou pelo menos 3ºC acima da marca registrada nos
últimos 80 anos, de acordo com estudo da pesquisadora Ana Paula Cunha, do Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Também na região Sul Fluminense, várias cidades
alcançaram em 2024 temperaturas acima da média dos últimos 80 anos, sendo que
oito delas ultrapassaram 1,5ºC de elevação: Paraty + 1.685 ºC; Valença
+ 1.660 ºC; Rio da Flores + 1.643 ºC; Resende + 1.589 ºC; Angra dos Reis +
1.588 ºC; Vassouras + 1. 547 ºC; Barra do Piraí + 1518 ºC; e Itatiaia + 1.516 ºC.
E as sucessivas ondas de calor nos dois primeiros meses de 2025 indicam
perspectivas ainda mais graves.
Estudo do Cemaden
O
estudo da pesquisadora do Cemaden mediu a anomalia de calor na temperatura
média dos municípios em 2024 em relação à média histórica. A conta foi
realizada por meio da combinação de bancos de dados baseados em informação de
satélites e medições. Ana Paula Cunha usou como base os dados do ERA5, do
serviço climático europeu Copernicus. O resultado foi divulgado em reportagem
do jornal O Globo.
“Nossa
análise não se refere ao período pré-industrial porque a incerteza seria muito
grande frente à escassez de dados. Mas se vê claramente que os anos de 2023 e
2024 só potencializaram uma tendência de aquecimento que já ocorria há décadas,
pelo menos desde os anos 1940/70”, explicou a pesquisadora.
Especialistas explicam que o fenômeno é resultado
da combinação de fatores globais, como o aumento de temperatura devido às
mudanças climáticas e ao El Niño, e aspectos locais, como significativa parte
do território desmatada e ocupada por plantações, pastagens ou simplesmente
terras de solo degradado. “O território brasileiro não aquece de forma
homogênea. É um país continental e algumas áreas esquentam mais do que outras
por uma série de fatores”, esclareceu ela.
Números assustadores
O
meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, ressalta que os números são assustadores.
“Meio grau Celsius acima da média do ano
todo já é muito. Mas tivemos alguns lugares com mais de 3ºC acima da média do
ano. É uma barbaridade“ afirmou ele. No Sudeste,
o calor está relacionado à escassez de chuva. E pesaram as muitas ondas de
calor. Elas foram associadas à falta de frentes frias, retidas no Sul, em boa
parte devido ao El Niño, que tem forte relação com as chuvas que em maio
devastaram o Rio Grande do Sul.
Além
disso, as ondas de calor foram muito frequentes e intensas numa região que já
costuma sofrer com calor e baixa umidade. Possui ainda elementos que favorecem
a elevação da temperatura, como continentalidade (não tem o alívio da umidade
do mar) e vastas áreas desmatadas e ocupadas por plantações e pastagens. “Vegetação
nativa retém mais umidade do que esse tipo de áreas”, explicou Seluchi. Quando
há baixa umidade, a maior parte da energia solar que chega à superfície é
convertida em calor, elevando a temperatura do ar.
Partes
da Amazônia ficaram mais de 2ºC acima da média e isso também é causa da falta
de chuva. O ano passado foi extremamente seco na Amazônia, em parte devido ao
El Niño, em parte ao Atlântico com temperaturas acima da média. “Os chamados
rios voadores transportam umidade da Amazônia para o Sul, Sudeste e
Centro-Oeste. Se a Amazônia sofre com a seca, as consequências são sentidas nas
áreas que dependem da umidade proveniente dela.” explicou Ana Paula Cunha.
No Sul Fluminense
A nossa
reportagem ouviu moradores de algumas cidades da região sobre o aumento do
calor.
Acácio
Junior, o Cacinho, chargista do Pavio Curto, nasceu em Barra do Piraí, cidade
que ficou na 7ª colocação no Sul Fluminense entre aquelas que a média de
temperatura subiu nos últimos anos. Ele mora em Juiz de Fora desde 2005, sendo
que está na área rural há seis anos. Visitou a cidade natal recentemente, onde
moram seus familiares. “Hoje Barra poderia se chamar Barra do Piraí Hell,
devido ao grande calor. Antigamente, era considerada uma região fria. Hoje o
frio nem passa perto”, afirmou Cacinho.
Resende
ocupa a 4ª posição de município mais quente do Sul Fluminense. Para o arquiteto
Caleb Chaves, nascido e morador da cidade, “a emissão de gases de efeito estufa
é a grande causa do aumento do calor e nada é feito para reduzi-lo”. Ele também
indica a impermeabilização do solo urbano e o asfaltamento das ruas, além do
corte desenfreado de árvores. Como forma de reduzir os efeitos ele sugere uma
ocupação do solo mais permeável e menos densa, arborização urbana e um sistema
de transporte público eficiente de baixo impacto.
Na
cidade vizinha de Itatiaia, que está na 8ª posição, a moradora Fabíola
Rodrigues, atriz, escritora e produtora de teatro, também acendedora do Pavio
Curto, lembra de que há alguns anos ninguém tinha ar condicionado na cidade. “Bastava
abrir as janelas da casa que refrescava. Atualmente o ar condicionado está se
tornando essencial”, disse ela. Além do aquecimento global, Fabíola identifica
localmente o asfaltamento excessivo das ruas como principal causa do aumento de
calor.
Ilustração:
Cacinho
*
Jornalista
Fontes: Cemaden e O Globo