terça-feira, 9 de novembro de 2021

CONSCIÊNCIA NEGRA: com a palavra, os movimentos populares

 Por Alvaro Britto 

Nos mês do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o Pavio Curto entrevistou lideranças de diversas frentes de luta do movimento negro. Conversamos sobre temas como a importância do resgate da memória de Zumbi e Dandara, as principais demandas e bandeiras de luta do povo negro, o papel das redes sociais na denúncia dos casos de racismo, o espaço aberto para os negros na chamada grande mídia, o triste momento que atravessa a Fundação Palmares e a participação do movimento negro nas eleições de 2022, entre outras questões. 

O resultado das entrevistas foi tão relevante que resolvemos dividir as respostas em três reportagens, de forma a destacar o rico conteúdo de cada fala. Nessa primeira parte, abordamos a diversidade do movimento negro através de várias entidades, coletivos e organizações. Na segunda, focamos a luta das comunidades quilombolas e na terceira, também veiculada através da rádio Pavio Curto, entrevistamos uma liderança da juventude negra. 

A coalizão faz a força

Diante de tantos ataques, uma boa notícia. Preservando e, mais que isso, fortalecendo a diversidade do movimento negro, com suas inúmeras frentes de atuação e segmentos específicos, foi criada, no início de 2019, a Coalização Negra por Direitos, formada por inúmeras organizações representativas do povo negro de todo o país.  

Em seu manifesto de lançamento, a Coalização anuncia que ‘O povo negro tem um projeto para o Brasil. Um projeto baseado na potência transformadora de mulheres, homens, jovens, pessoas LGBTQI+, favelados e periféricos, aquilombados e ribeirinhos, encarcerados e em situação de rua, negras e negros que formam a maioria do povo brasileiro’.  

Segundo o documento, ‘Este projeto de país, voltado para um futuro justo e inclusivo para todas e todos os brasileiros, se torna agora um compromisso formal assumido por organizações do movimento negro espalhadas por todo o território nacional’. Atualmente, a Coalização Negra por Direitos é composta por 233 entidades, entre organizações negras, parceiras e aliadas. Dentre elas, 19 integram a sua secretaria operativa, inclusive algumas cujos representantes foram entrevistados pelo Pavio Curto

A Carta Programa da Coalização traz 14 princípios e 25 reivindicações e exigências que representam o conjunto de pautas dessa ampla articulação.  A íntegra da Carta Programa, a relação das organizações participantes e muito mais informações e conteúdos em textos, fotos e vídeos sobre a Coalizão Negra por Direitos você pode encontrar em www. coalizaonegrapordireitos.org.br


Sonia Freitas: ”Como nossos ancestrais, somos teimosos. Não morreremos sem lutar!” 


Histórica militante do movimento de mulheres negras de Resende, Soninha, como é conhecida, atua na organização Agentes de Pastoral Negros (APNs) e na Coordenaria de Igualdade Racial da Prefeitura Municipal. 

“Estamos vivendo um momento muito difícil onde todos os dias temos que nos reinventar, até mesmo nossa própria existência como seres humanos. Resgatar, lembrar e reafirmar a luta de Zumbi e Dandara será, especialmente esse ano, um marco na nossa luta. Pois adoecemos, perdemos entes queridos, vimos nossas políticas públicas serem desmanteladas. Na verdade vimos o Brasil descer ladeira abaixo. Os ataques a Zumbi, Dandara e outras personalidades que fizeram a diferença nesse pais demonstram que estavam certos, ou no mínimo faziam sentido suas ações, caso contrário tais ataques não aconteceriam. Como nossos ancestrais, somos teimosos. Não morreremos sem lutar. Trazemos conosco uma ousadia histórica que não nos deixa desistir.”

“A maior demanda do povo negro no momento, podem até não acreditar, mas é vencer a fome, o desemprego a miséria. Temos assistido a degradação da população mais pobre, em especial, a população negra. Resgatar a dignidade dessas pessoas, elevar a autoestima é preciso. Com certeza há demandas específicas das mulheres, LGBTQIA+, juventude, idosos, etc. Não podemos esquecer das pautas específicas das mulheres negras que não são contempladas na luta geral do Movimento de Mulheres.” 

“Nossas bandeiras de luta nunca mudaram, até porque não as alcançamos. Ao contrário disso, essas bandeiras são acrescidas de outras. O sistema racista não nos dá trégua. Quando estamos vencendo uma batalha, vem nova guerra. Ao mesmo instante que lutamos contra o racismo, é fundamental que lutemos pela promoção da igualdade. Mostrar a essa sociedade que vidas negras importam, que nossa juventude negra tem o direito de ir e vir sem ser assassinada, que as instituições desconstruam o racismo que as norteiam. São onze anos da Lei 10.639 e até hoje as ‘escolas’ não se adaptaram para implementá-la. As bandeiras são muitas e, praticamente todas são prioritárias.”

“Da mesma forma que as redes sociais têm dado publicidade aos casos de racismo, também acordaram os monstros racistas, fascistas e todos os ‘istas’ que conhecemos. Mudança de consciência? Essa sociedade nem admite que é racista, vive em constante negação e aproveita as redes sociais para destilar venenos racistas e se esconder. Mas por outro lado, nós também usamos as redes sociais e isso têm nos ajudado a mostrar a verdadeira face dessa sociedade. Mudança de consciência da sociedade sobre o racismo ainda vai levar um longo tempo.”

“Podemos afirmar sem medo que a ocupação desses espaços (na mídia) foi mais uma conquista dos profissionais que são altamente capacitados, pressão do mercado e cobrança dos movimentos sociais negros. E a grande mídia age de acordo com as conveniências, ou seja, faz o que é bom para ela, o que dá resultado positivo. Na verdade essas portas quase foram arrombadas para que esses profissionais negros e negras lá estivessem.”

“Sérgio Camargo à frente da Fundação Palmares é um projeto muito bem arquitetado pelo sistema racista, hoje representado pelo presidente da República.  Esse projeto está em andamento há muito tempo, mas nesse momento específico, ele aflorou. É um projeto calcado em retrocessos, extermínio da população negra e indígena, humilhação aos pobres, etc. Para uma sociedade construída sobre um pilar racista nada melhor do que um dos ‘nossos’ a fazer esse papel de desconstrução de nossas pautas e, até mesmo de nossa história. Estamos assistindo a volta do capitão do mato. Enfrentar Sérgio Camargo é dizer não a tudo aquilo que nos mata.” 


“Muitas vezes o novimento negro tem suas pautas unificadas, mas com vertentes políticas partidárias diversas. Em várias partes do Brasil a discussão de que é preciso lançar candidatura negra com pautas específicas do movimento está sendo feita. Mas na maioria das vezes, essa candidatura é pessoal.” 

“Resistir é preciso.  Renovemos nossas esperanças para 2022!!”


Yuri Willon: “A luta antirracista é de caráter coletivo e não individual” 



Jovem universitário, Yuri é militante do Coletivo Seja, que é um movimento LGBTQIA+ de mobilização social e afirmação da diversidade que funciona desde julho de 2019. Ele também é membro do Conselho Tutelar de Porto Real. 

“É muito importante resgatar a memória de luta e resistência do povo preto, romper com o pensamento abissal da brancura que se apresenta como salvadora e coloca o povo preto no lugar da passividade. É fundamental exaltar nosso protagonismo no enfrentamento ao racismo e reafirmar nossa corporeidade nessa arena de disputa e resistência.”

“Acredito que nesse cenário pandêmico o maior enfrentamento da população preta seja o emprego informal ou a falta do mesmo, onde o Brasil voltou para um cenário assustador de fome, o Estado opera pela omissão, no deixar morrer. Quando falamos sobre LGBTQIA+ se faz necessário deixar claro de quem estamos falando, pois as pessoas são específicas com demandas também específicas, a população trans e travesti acaba sendo a linha de frente vítima desse (cis)tema de opressão que a coloca sujeita à subalternidade.”

“O Coletivo Seja é um coletivo LGBTIA+, logo todo conteúdo e atividade proporcionada por nós é destinada à esse público alvo. Abordamos a questão racial através da ótica de gênero e sexualidade, mas nos colocamos firmemente na luta antirracista na promoção dessas práticas anti-repressivas.”

“Acredito que sim, mas (a rede social) não alcança toda a população. A luta antirracista tem que acontecer diariamente por todos nós em todos os espaços, estando sempre preparados para identificar e denunciar.”

“A luta antirracista é de caráter coletivo e não individual. Uma pessoa preta estando em lugar de destaque, apresentando um telejornal é grandioso e potente, significa muita representatividade, mas não muda a vida de todo um coletivo que é discriminado, assassinado, encarcerado diariamente. O povo preto ainda continua escravo da fome e do desemprego. Se a grande mídia não utiliza seu poder pra mudar essa realidade, não existe tomada de consciência.”

“Um grande retrocesso (Sergio Camargo na Fundação Palmares), símbolo de desmonte, alagamento e banalização do movimento negro brasileiro.”

“Com certeza, nossa luta é anti-Bolsonaro, queremos sua derrubada já, e de todos os seus aliados. É muito importante fortalecer e incentivar candidaturas pretas, femininas e LGBTIA+.”

“A branquitude ainda não se reconhece enquanto específica, não se entende enquanto raça, sempre se comportou como salvadora de uma falsa liberdade privando o preto de ser protagonista de sua própria luta. Minha luta é por emancipação e autonomia do corpo preto, corpo este vivo que produz, celebra e conquista. Que nossos saberes sejam válidos, que nossa corporeidade seja exaltada e que nossa cultura seja nossa. Que nossa consciência seja cada vez mais preta.”


Cloves Alves: ” Há uma reparação histórica a ser feita pelo Estado Brasileiro”



Empresário, repórter fotográfico, estudante de direito e militante do Movimento Negro Unificado (MNU) do Sul Fluminense.  Fundador e atual presidente do Kilombo Ngangu Clube e instrutor do Programa Lapidando Pérolas e Diamantes Negros.

“Lembrar Zumbi e Dandara é lembrar da luta da nossa ancestralidade e reverenciar aqueles e aquelas que lutaram, deram suas vidas, para a libertação de um povo escravizado. O 20 de novembro, dia do assassinato de Zumbi, um dos nossos primeiros guerreiros na luta contra a escravização é lembrar de tantos outros e outras que posteriormente travaram essas lutas. Comemorar e lembrar essa data é extremamente importante para que as barbáries da escravização não se repitam e dizer claro e em bom tom que há uma reparação histórica a ser feita pelo Estado Brasileiro. Paulo Freire representa a inclusão e o crescimento social não só de negros e negras, mas de toda a população pobre em vulnerabilidade escolar. É a inclusão social através da educação.”

 “As nossas principais demandas são respeito e reconhecimento.  E preciso oportunizar emprego de qualidade e remuneração justa, cumprir e trabalhar a atenção básica previstas na constituição (saúde, moradia digna, educação e etc...).”

“Nossa principal bandeira será sempre a luta por equidade e o fim do racismo. Implementação de políticas públicas que atendam as demandas da população negra. Que visem o fim da criminalização, mortandade e o encarceramento do nosso povo.”

“De fato as redes sociais trouxeram essa visibilidade aos casos de racismo, mas infelizmente pouco se tem punido. Há várias brechas nas leis, o que dificulta a punição à altura e em conformidade do crime cometido, muitos inclusive reduzidos de racismo que é crime, a injuria racial. Não percebo grandes mudanças positivas na nossa sociedade. Infelizmente houve um grande retrocesso e perdas por conta do atual presidente da República e uma política de negacionismo e conservadorismo extremo, que desqualifica as lutas de classes, inclusive no combate ao racismo.” 

“Ainda é muito pequena essa abertura (na mídia), na verdade esses espaços ocupados são fruto de muito ‘pé na porta’ de muita luta e qualificação ao máximo. Nos tornamos um grande mercado consumidor e cada dia mais exigente de produtos e serviços que atendam nossas demandas, nossos gostos, estilos e formas de viver, e isso tem forçado uma abertura nesses espaços.  As novelas retratam uma romantização da vida dos negros e negras, principalmente no período escravocrata, que em nada representa a realidade da vida dos negros no Brasil.”

“Sergio Camargo representa o que há de pior em um ser humano. É um preto a serviço dos brancos racistas, um verdadeiro capitão do mato. Um ser vil que vende seu povo por poucas moedas, um Judas Iscariotes. Ele representa um verdadeiro retrocesso na luta contra o racismo e na representatividade preta.  Pior que um branco racista é um preto racista, um preto que não reconhece a luta do seu povo e nem as mazelas da sociedade que ainda assolam e empurram para a miséria uma população que ajudou a construir a riqueza do País e que não tem sequer uma alimentação básica e digna.”

“Ter candidaturas negras é primordial para por na mesa políticas públicas que atendam as nossas demandas. Infelizmente ainda nos falta a estrutura e espaço necessário para ampliar esses debates, mas já alcançamos grandes avanços para 2022.”

“O dia da consciência negra é um dia de celebração e conscientização sobre qual foi, é e será o papel do negro na sociedade brasileira. Um dia de conscientizar negros e negras, não negros sobre a importância de se eliminar o racismo estrutural, dizer que ele existe, é maléfico e precisa ser extirpado do seio da sociedade. Trabalhos e oportunidades de debates propostos pelo Pavio Curto contribuem para que nossas vozes cheguem até as pessoas e que de alguma forma contribui para a nossa conscientização e principalmente no combate ao racismo. Vidas negras importam, somos nós por nós e ninguém vai largar a mão de ninguém.”


Iara  Petrilio: “A bandeira que insiste em ser prioritária é: PAREM DE NOS MATAR!”



Natural de Volta Redonda, moradora de Resende e mãe do Ian e do Wilquer, Iara é funcionária pública concursada, atualmente licenciada. Empreendedora, é militante da União de Negros pela Igualdade (UNEGRO). 

“Diante o cenário atual é fundamental que exaltemos o 20 de novembro, exaltemos toda luta travada antes de nós. Levantarmos nossa voz e bandeira para que não esqueçam que estamos aqui e continuaremos de pé, seguindo os exemplos de luta e resistência deixados. “

“ As demandas do povo negro continuam as mesmas de antes da pandemia e passam pela garantia dos direitos básicos: trabalho, saúde e educação públicas de qualidade. Coisas que só se agravaram com a pandemia, que afetou a população negra em maior número. E dentro da população negra os mais afetados são os homens negros. Desemprego, morte por homicídio, população carcerária. Hora de pararmos, valiarmos , reavaliarmos nossa caminhada. Não é parar com as demais pautas, mas entendermos que são nossos maridos, filhos, pais, irmãos, amigos que estão sendo mais afetados nesse sistema excludente e genocida.”

“A bandeira que insiste em ser prioritária é: ‘PAREM DE NOS MATAR!’.  Fisicamente, intelectualmente, esteticamente, culturalmente, religiosamente. “

“Não acredito na mudança de consciência da sociedade por conta da visibilidade. Pois nem todos são punidos, nem todos as denúncias têm continuidade, nem todas tem a mesma visibilidade e repercussão. Até nisso há um processo em que eles decidem qual vítima merece repercussão. Inclusive acho desnecessário o termo ‘injúria racial’,  pois é nele que os racistas se apegam para penas leves ou nulas.  Acredito que o acesso à informação e às políticas públicas criadas e garantidas através das ações e políticas afirmativas são os reais fatores para essa mudança de consciência.”

“Em relação ao espaço para negros na grande mídia, acredito que inicialmente foi apenas jogada de mercado.  Mas com as políticas afirmativas, mesmo que discretamente, ainda com barreiras, estamos ocupando espaços antes negados e a partir daí iniciou-se uma tomada de consciência, ainda discreta e como jogada de mercado.”

“Não que ele seja uma exceção, mas penso que significa que é hora do movimento reavaliar posturas e posicionamentos. Para mim, Sérgio Camargo é a figura do capitão do mato, combatido por Zumbi, por Dandara e tantos outros.  Não conheço a trajetória  desse senhor, mas conheço outros ‘Sergios Camargos’ que se criam dentro dos movimentos e que são cooptados pelos senhores brancos.  Nos espantamos por ele estar na Fundação Palmares, mas não esperava nada diferente do eleito presidente. Me espanta muito mais negros e negras conhecidos, que estão na luta há mais tempo que eu, se tornarem capitães do mato.  Momento de reavaliação, de identificar e tomar medidas antes que sejam usadas contra nós.” 

“Acredito que ainda não (haja candidaturas do movimento negro), a não ser para presidente que não há o que discutir. Mas espero que diante do cenário atual seja seriamente levado em consideração e que as vaidades sejam deixadas de lado.  Os demais cargos da disputa eleitoral também devem ser muito bem costurados com e para a luta.”

“O movimento deve se lembrar o que nos une. E isso é muito maior que qualquer vaidade, qualquer pessoa, benefício ou cargo.  Temos que nos reorganizar e voltar ao básico, a tarefa de casa.  Como estão as políticas públicas em nossa cidade? Nos últimos anos, por exemplo, o feriado de 20 de Novembro não foi respeitado. Quantos ‘Sérgios Camargos’  estão à frente de pastas importantes com discursos e bandeiras que não são nossos?  Reforçando: momento de reavaliar, reorganizar e garantir que outro genocida não ganhe a eleição e continue nos matando.”


Sebastião de Oliveira: “A maior demanda é a luta contra a desigualdade”



Atualmente morador de Resende e servidor público municipal da Prefeitura de Barra Mansa, Sebastião de Oliveira é militante histórico do Movimento Negro no coletivo Agentes de Pastoral Negros (APN). 

“É muito importante resgatar a memória da luta do povo negro no Brasil, ressaltando ícones como Zumbi e Dandara que foram resgatados pelo movimento negro para a sociedade brasileira. Nem a academia nem a imprensa reconheciam Zumbi e Dandara. Foi o movimento negro que os trouxe para o panteão dos heróis da nação. Importante reforçar essa imagem de todos os negros que lutaram e lutam contra a escravidão e o racismo. Assim como o mestre Paulo Freire, que com a sua pedagogia do oprimido trabalhou pela emancipação dos empobrecidos. O combate à extrema-direita, que injuria esses ícones principalmente pelas redes sociais, será no dia a dia para desmentir essas mentiras. Isso é um aspecto da luta de classes.”

“ A maior demanda é a luta contra a desigualdade. A sociedade precisa ser convencida de que é insuportável a desigualdade gerada pelo racismo que se reflete nas questões sociais. Os quilombolas são vítimas, já que no processo de exclusão gerado pela escravidão, eles ficaram mais isolados ainda nos grotões do Brasil. Até 1988, por exemplo, os kalungas, em Goiás, não eram reconhecidos pela sociedade. É uma desigualdade absurda, em que pouquíssimos detém a maior parte da renda, das propriedades e dos direitos. Essa é a bandeira que o movimento negro precisa trazer para si, junto com o conjunto da sociedade. A luta contra o racismo também é central. Cada vez mais o racismo no Brasil, que sempre existiu, fica mais explicito nas redes sociais, nos jornais e na TV. Precisamos é dos mecanismo de combater o racismo. O STF acaba de igualar a injuria racial ao crime de racismo. Isso é importante, mas os negros precisam ter consciência de que sofrem racismo e não apenas discriminação ou preconceito, que produz muita desigualdade no Brasil.”

“Bandeira de luta prioritária é garantir a participação do negro na sociedade brasileira.”

“A mudança da consciência demanda um período mais longo de tempo. O Brasil ainda tem pouco tempo de redemocratização e nesse curto período a questão do racismo, da discriminação e do preconceito, além da participação do negro na sociedade, não obtiveram destaque, apesar dos avanços. A dificuldade do debate da implantação da políticas de cotas nas universidades e nos concursos públicos – inclusive em Resende -  é um exemplo.  O que vai fazer a sociedade avançar é a inserção do negro nessa sociedade de classes, em funções de poder, advogados, médicos, professores. Aí a sociedade será obrigada a enfrentar o racismo de frente e vai ter que se resolver. Espero estar vivo para ver isso acontecer. “

“O espaço para negros na mídia é resultado de uma pressão de mercado, já que os negros estão alcançando um nível de padrão de consumo e isso interessa aos capitalistas que querem obter lucro. Mas também há o movimento negro, desde Abdias do Nascimento com o teatro experimental do negro. Também conseguimos formar grandes artistas nas escolas de formação. A ampliação das vagas nas universidades com o Prouni e a política de cotas rompeu uma das barreiras que era a qualificação. O desafio é inserir esses jovens no mercado. Várias iniciativas do movimento negro estão abrindo essas portas e nós vamos continuar ocupando mais e mais.” 

“Sérgio Camargo na Fundação Palmares é uma página que deve ser virada. Lamentável, ele expressa o que é o governo para o qual trabalha. Vai para o lixo da história. “

“Eleições gerais, como a de 2022, mobilizam a sociedade e a comunidade negra. A questão racial sempre aparece de forma enviesada, num segundo plano. Mas para a comunidade negra cada eleição se torna mais importante para a tomada de consciência. As ações do STF e do TSE para fortalecer as candidaturas negras, assim como as cotas, vão produzir resultados positivos. O movimento negro está se preparando para lançar candidaturas fortes em diversos estados. Esperamos aumentar a nossa representação principalmente no Senado, na Câmara e nas assembleias estaduais. 

“Por fim, o 20 de novembro é data de celebração, apesar da pandemia impedir nossas festas, encontros, comermos juntos nossas feijoadas. Mas estamos unidos na luta, na fé e certos de que a vitória vai chegar com o fim do racismo, da discriminação e do preconceito contra a população negra. Viva Zumbi, viva o 20 de novembro, viva o povo negro! “ 


Fotos: Alvaro Britto e arquivo pessoal dos entrevistados

Fontes: coalizaonegrapordireitos.org.br; fase.org.br; oxfam.org.b; ceert.org.br


CONSCIÊNCIA NEGRA: a fala dos quilombolas

  

Por Alvaro Britto

Em mais uma reportagem celebrando o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o Pavio Curto entrevistou duas lideranças quilombolas: Bia Nunes, presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ) e Toninho Canecão, presidente da Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo São José da Serra, localizado em Valença, na região Sul Fluminense.

Conversamos sobre temas como a importância do resgate da memória de Zumbi e Dandara, as principais demandas e bandeiras de luta das comunidades quilombolas, o papel das redes sociais na denúncia dos casos de racismo, o espaço aberto para os negros na chamada grande mídia, o triste momento que atravessa a Fundação Palmares e a participação do movimento quilombola nas eleições de 2022, entre outras questões.

Mas...o que é quilombo?

‘Aos remanescentes das Comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras, é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos respectivos’
Art. 68/ADCT/CF-1988



A palavra quilombo é originária do idioma africano quimbunco, que significa: sociedade formada por jovens guerreiros que pertenciam a grupo étnicos desenraizados de suas comunidades.

A noção de identidade quilombola está estreitamente ligada à ideia de pertença. Essa perspectiva de pertencimento, que baliza os laços identitários nas comunidades e entre elas, parte de princípios que transcendem a consanguinidade e o parentesco, e vinculam-se a ideias tecidas sobre valores, costumes e lutas comuns, além da identidade fundada nas experiências compartilhadas de discriminação.

 O Território Remanescente de Comunidade Quilombola é fruto das várias e heroicas resistências ao modelo escravagista e opressor instaurado no Brasil colônia e do reconhecimento dessa injustiça histórica. Embora continue presente perpassando as relações socioculturais da sociedade brasileira, o escravagismo vigorou institucionalmente até 1888.

 A caracterização dos remanescentes de quilombo deve ser dada segundo critérios de auto atribuição atestados pelas próprias comunidades, como também previsto pela Convenção da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais.

Essa garantia, entretanto, só foi regulamentada em 2003, através do Decreto Federal Nº 4.8878, assinado pelo então presidente Lula, que definiu o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo o INCRA o órgão competente na esfera federal, havendo competência comum aos respectivos órgãos de terras estaduais e municipais.

E como se organizam os quilombolas?

1995 foi um marco para o movimento negro brasileiro pela passagem dos 300 anos da morte de Zumbi. Na ocasião, foi titulado o primeiro quilombo no Brasil, o Quilombo Boa Vista, em Oriximiná, no Pará, aconteceu a histórica marcha 300 anos Zumbi e também quando o dia 20 de novembro foi considerado o Dia Nacional da Consciência Negra.

Ainda em 1995 foi realizado, por um conjunto de organizações negras com a participação de lideranças quilombolas, o I Encontro Nacional de Comunidades Quilombolas. Uma das suas principais deliberações foi a criação de uma entidade política de representação das comunidades quilombolas, que consolidou-se em 12 de maio de 1996 em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, com a criação da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

A CONAQ é uma organização nacional sem fins lucrativos que representa os quilombolas do Brasil. Seus objetivos são lutar pela garantia de uso coletivo do território; implantação de projetos de desenvolvimento sustentável e de políticas públicas respeitando a organização das comunidades; educação de qualidade e coerente com o modo de viver nos quilombos; protagonismo e autonomia das mulheres quilombolas; permanência do jovem no quilombo e acima de tudo pelo uso comum do território, dos recursos naturais e em harmonia com o meio ambiente.

A constituição da Conaq lança o movimento quilombola no cenário nacional, que passa a ser reconhecido como um dos mais ativos agentes do movimento negro no Brasil contemporâneo e introduz um debate que busca fortalecer a perspectiva de que o país tem em suas estruturas mais profundas uma grande pluralidade étnica. A CONAQ integra a secretaria operativa ada Coalizão Negra por Direitos, articulação nacional do movimento negro.

E no Rio de Janeiro?

As organizações quilombolas, nos estados, são constituídas de diferentes formas. Algumas estão organizadas enquanto Associação ou Federação, tal como o Rio de Janeiro, onde a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ) foi fundada em 3 de outubro de 2003. Ela é formada por um grupo de diretores com representantes das regiões em colegiado com todas as comunidades quilombolas do estado.


Na comemoração dos seus 18 anos de lutas e conquistas, em outubro deste ano, a ACQUILERJ homenageou quilombolas vítimas da Covid 19, como a Tia Uia (Carivaldina Oliveira da Costa), do quilombo da Rasa, em Búzios. “Quando falamos dela, nós falamos da nossa força, da nossa identidade, da nossa resistência”, afirmou a presidente da Associação, Bia Nunes, reforçando a importância da Tia Uia para a história da luta quilombola no Rio e Janeiro.

No evento, realizado na Assembleia Legislativa, foi também lançado o livro “Relatório: Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro”, produzido por Pedro Rebelo, colaborador da ong Koinonia, em parceria com a ACQUILERJ. A pesquisa mapeia a situação de 32 das 52 comunidades quilombolas do estado no contexto da pandemia de Covid-19. Houve ainda apresentações culturais de jongo.

 

Bia Nunes: “As bandeiras de luta do nosso povo são diversas, porém todas passam pela resistência e permanência em seus territórios”

Ana Beatriz Bernardes Nunes, conhecida como Bia Nunes, tem 54 anos e nasceu na comunidade remanescente de quilombo de Maria Conga, em Magé, na Baixada Fluminense. Bia mora em Santo Aleixo, 2º distrito de Magé, é professora de alfabetização e ex- conselheira tutelar por dois mandatos. Ela está como presidente do Conselho Municipal de Direito da Criança e do Adolescente de Magé e vice-presidente do Conselho Estadual da Promoção da Igualdade Racial (CEDINE-RJ).

Bia foi eleita presidente da ACQUILERJ, sucedendo Ivone Bernardo, no VI Encontro Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro, realizado em agosto deste ano no Quilombo Baía Formosa, em Armação dos Búzios. O mandato da diretoria vai até 2024.  

Ela explicou que o nome da comunidade quilombola onde nasceu homenageia Maria da Conceição, que veio da África.  Maria Conga nasceu na África em 1792. Oito anos depois, chegou ao Brasil junto com a família, num navio negreiro. Separada dos pais, acabou vendida para um senhor de engenho, em Salvador. Lá, recebeu o nome de Maria da Conceição. Até conquistar a liberdade, aos 35 anos, foi vendida outras duas vezes. Quando se tornou livre, fundou o quilombo em Magé para proteger os refugiados.



“Tanto nesse 20 de novembro de 2021 quanto nos demais é necessário falar, verbalizar, ressaltar a importância da memória histórica de toda luta do povo escravizado do nosso Brasil. Zumbi e Dandara se tornaram referência nacional na luta quilombola assim como outros nomes importantes nessa luta de resistência histórica do nosso povo. Pouco se falou da nossa verdadeira história nos livros didáticos, e hoje os escritores que buscaram elucidar o conhecimento de uma forma didática e pedagógica, são injuriados, caluniados e com suas narrativas distorcidas.”

“Entre diversas demandas do povo quilombola que já vivia de uma forma isolada, protegendo e lutando pelos seus territórios, hoje enfrenta diversas outras situações de caos instalado pelo desconhecimento, negacionismo, ignorância, e despreparo da parte de uma grande parte da representação do poder público. Um povo que além de ter que enfrentar a situação da falta de políticas públicas voltadas para saúde, educação, geração de trabalho e renda, entre outras, ainda encontra-se tendo que fazer uma defesa muito mais contundente de seu espaço e território, pois enquanto toda uma sociedade vivia isolada em função da pandemia, a boiada passou e invadiu ainda mais os territórios quilombolas.”

 “As bandeiras de luta do nosso povo são diversas, porém todas passam pela resistência e permanência em seus territórios. O título da terra é o que pode garantir a manutenção histórica do nosso povo, a manutenção histórica do Brasil.”

“Como outros diversos instrumentos, a rede social também tem sido um elemento norteador para garantir algumas denúncias e narrativas explícitas, levando um conhecimento que ainda era desconhecido por boa parte de nossa população. Acredito que muitos ao tomar conhecimento das verdadeiras histórias têm buscado também mudar os seus comportamentos. Nesse sentido a rede social tem sido esse instrumento que tem abalado as estruturas de nossa sociedade, tirando assim alguns da sua chamada zona de conforto.”

“Acredito que o comportamento das grandes mídias abertas, em relação aos espaços para negros e negras em telejornais, novelas e publicidade nada mais é do que uma grande pressão do mercado. Como falei antes, as redes sociais têm provocado no mercado um comportamento de necessidade para que estes saiam de fato de sua zona de conforto. Ainda faltam muitas ações eficazes para que de fato a grande mídia desenvolva espaços para o nosso povo. A mudança ocorre ainda em passos lentos e já deveríamos ter avançado muito mais, porém o racismo estrutural ainda é em uma proporção muito grande.”

“Falar de 2022 é falar dos últimos anos de retrocesso vivido pela nossa população. É fundamental identificar quem são os capitães do mato, pois as marcas das chibatas estão explícitas em nosso corpo, assim como em nossa memória. Sabemos que a mudança precisa acontecer internamente para que ela possa se materializar externamente, e o nosso papel é extirpar o tumor antes que este se enraíze por todo o corpo. O nosso posicionamento é desenvolver toda articulação para lançamento de candidaturas quilombolas e apoio aos parceiros que representam nossas causas.”

Toninho Canecão: “Zumbi sempre será lembrado, a lembrança dele é tão forte que nem aparecem essas pessoas do contra”


Antônio do Nascimento Fernandes, o Toninho Canecão, é presidente da Associação da Comunidade Negra Remanescente do Quilombo São José da Serra, localizado no distrito de Santa Isabel do Rio Preto, município de Valença, na região Sul Fluminense. Desde a chegada dos negros escravizados na fazenda em 1850, a comunidade do Quilombo São José da Serra tem sua história perpassada pelo combate ao preconceito racial e a intolerância religiosa e, após a Abolição, somaram-se a resistência e luta constante pelo direito à terra.

O processo de regularização teve início em outubro de 2005, quando a Associação a requereu junto ao Incra-RJ.  Incra/RJ. Depois de vários procedimento técnicos e administrativos, em dezembro de 2007 foi emitida Certidão de Autorreconhecimento pela Fundação Palmares, certificando que a Comunidade de São José da Serra é remanescente de quilombos. No dia 20 de novembro de 2009, os moradores do quilombo conquistaram o título das terras da fazenda, porém a lentidão do Estado na garantia deste e de outros direitos constitucionais só possibilitou a posse efetiva das terras em abril de 2015. O território possui 31 famílias descendentes de escravos, distribuídas em 476 hectares.

O jongo de São José da Serra tem sido uma importante ferramenta na difusão e na afirmação da sua identidade afro-brasileira. A partir dela os moradores têm feito palestras em escolas e recebido visitas no quilombo como forma de reforçar a luta da comunidade negra pelos seus direitos. Ao reforçarem sua identidade como originários de famílias de escravos Bantu, vasto grupo linguístico e cultural da África Central, compartilham uma série de valores que englobam a interação constante entre dois mundos: de um lado, o dos vivos, e de outro, e o das entidades, guias ou espíritos, que influenciam os destinos dos vivos.

Este sentimento de interação entre os mundos é expresso de forma intensa por meio da prática do Jongo - ritmo que, desde a chegada de escravizados africanos em terras fluminenses, demarca o patrimônio cultural e religioso de seus descendentes. Segundo estudos, a comunidade de São José da Serra é um dos seus berços no Brasil. Jongo (o canto), aliado ao caxambu (a dança), representa o ápice das festas do “13 de Maio”, dos dias dos santos católicos de devoção da comunidade, das festas juninas, dos eventos familiares especiais e das apresentações públicas, como é o Encontro de Jongueiros, realizado anualmente.  


“A força do quilombo mesmo é o negro, a união e o jongo. E o jongo é o início, o meio e a permanência. Eu não vou dizer fim não, é a permanência, porque tudo que gira em torno do quilombo gira em torno do jongo”, afirmou Toninho Canecão. “Hoje no quilombo, antes de ser batizada na igreja, a criança é batizada na roda de jongo. Então, a gente tem muito respeito com o jongo”, completou.”

“Zumbi sempre será lembrado, a lembrança dele é tão forte que nem aparecem essas pessoas do contra.”

“As nossas maiores demandas são os títulos dos territórios de quilombos e o reconhecimento de outras terras maiores.”

“A bandeira de luta dos quilombos é garantir a chegada de recursos nas comunidades.”

 “A publicação na rede social sempre mostra o lado da moeda que fica para baixo e atualmente a internet está ao alcance de todos. Hoje (a consciência sobre o racismo) tá melhor que ontem, um dia a gente chega lá. “

“Sérgio Camargo é um inútil. Ele conseguiu se isolar dentro de uma grande casa que é a Fundação Palmares.”

“Espero que alguém comprometido com a nossa luta se lance a candidata ou candidato. A gente não perde a esperança. A nossa hora vai chegar.”

 

 

Fotos: divulgação ACQUILERJ

Fontes: coalizaonegrapordireitos.org.br; fase.org.br; oxfam.org.b; ceert.org.br; cpisp.org.br; kn.org.br

Historiadores do MEP-VR comentam o lançamento do filme sobre Marighella

 Por José Maria Silva, o Zezinho*

Após um atraso de dois anos, o lançamento nacional, em 4 de novembro, do filme Marighella, do cineasta Wagner Moura, baseado no livro do jornalista Mário Magalhães, provocou nos historiadores ligados ao Pré-Vestibular Cidadão do Movimento pela Ética na Política de Volta Redonda (MEP-VR) importantes reações. Um deles, Luiz Henrique de Castro Silva, é autor de outro livro sobre o mesmo período, que conta a história de um companheiro de Marighella na Aliança Libertadora Nacional, a ALN: ‘O Revolucionário da Convicção: vida e ação de Joaquim Câmara Ferreira’.  

DOIS LIVROS: UM FILME

- Conheci o Mário Magalhães e nos tornamos amigos quando eu realizava a pesquisa para a biografia de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho ou Toledo, que fundou junto com Carlos Marighella a ALN, a maior organização de luta armada contra a ditadura militar. Na mesma época, Mário estava elaborando a biografia de Marighella, um dos maiores revolucionários que o Brasil já teve e que foi considerado o inimigo público número um pela ditadura militar – contou Luiz Henrique, que é mestre em História, ex-coordenador do MEP-VR e professor do Pré Vestibular Cidadão.

“Nesse período, entre 2008 e 2009, estávamos entrevistando as pessoas que haviam convivido com esses dois homens: familiares, militantes da ALN, de outras organizações de esquerda e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e membros da ordem religiosa dos dominicanos, que os apoiou logisticamente. Mário publicou ‘Marighella - O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo’ e eu - ‘O Revolucionário da Convicção: vida e ação de Joaquim Câmara Ferreira’ ”, explicou o historiador. 

Segundo ele, “retomar a história desses homens, como o faz agora o ator e diretor Wagner Moura com o filme sobre Marighella, é recuperar a memória histórica de um Brasil que muitas vezes sofre pela ausência da mesma.” 

MEMÓRIA DA RESISTÊNCIA 

 - Os inimigos de Marighella estão aí, transitando no poder e conduzindo o país cada vez mais para o abismo. Uma vez, Marighella afirmou que não teve tempo de sentir medo. Pois essa mensagem vale muito para os jovens que se contrapõe ao autoritarismo que hoje nos governa", declarou Danilo Caruso, doutor em história e também professor no Pré Vestibular Cidadão do MEP.

Na opinião de Paulo Célio, doutor em história, professor universitário e colaborador do MEP, "Marighela era um homem de coragem. Baiano arretado, optou pela luta armada para se contrapor à ditadura se tornava cada vez mais intolerante e agressiva.  Lutou até o fim por seus ideais. Em um período em que não se tolerava oposição, não se curvou às imposições dos generais. O filme de Wagner Moura chega em boa hora, para celebrar a memória da resistência, para fazer um contraponto a esse governo genocida que se espelha na ditadura. Os tempos são outros, as táticas são outras mas a memória de Marighela ainda incomoda aos aspirantes de ditadores."

POLÊMICAS

– Estou aguardando ansioso para assistir, pois acredito que quanto mais tivermos acesso aos relatos desse período, mais condições teremos de refutar os negacionistas que ainda hoje dizem que a ditadura militar foi “boa” e que todos os que a combateram eram bandidos. O filme chega cercado de polêmicas, como a dificuldade dos produtores o lançarem no Brasil, onde chega 2 anos e nove meses após a sua apresentação no Festival de Berlim. Polêmica porque apresenta a história de um líder revolucionário controverso, não por causa das suas intenções na resistência contra a ditadura militar, mas por ter recorrido à luta armada - afirmou o professor Anderson Couto, coordenador do núcleo de História no Pré Vestibular Cidadão.  

Para a professora Maria Eloah, mestranda (UFFRJ) e professora licenciada do MEP, e igualmente na expectativa, “esperamos muito tempo por esse filme, já que em tempos como o atual ver a história de um revolucionário nas telas do cinema nos faz ter forças pra resistir às constantes investidas autoritárias que temos sofrido. Marighella resiste e nós também!”


* Membro do Movimento pela Ética na Política (MEP) de Volta Redonda

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Entrevista – Arte e artistas

 Por Mani Ceiba*

O que é ser artista? Pergunta complicada, essa definição pode ter muitas variações e seu conceito está diretamente ligado ao conceito de arte, igualmente controverso e variável. A tentativa de enquadrar o que se entende por artista e arte, dentro de parâmetros fixos e de valor universal é sempre falha e insuficiente. 

Eu vejo um desenho na asa de uma borboleta e vejo arte e quem me vê olhando a borboleta pode estar vendo a arte de ver a vida. Como dizer que respirar não é uma arte? Como dizer que uma senhora que faz um buquê de flores silvestres não é uma artista? Quem decidiu o que é arte? 

Quando recebi o primeiro convite do Pavio Curto de cara já disse: “Quero divulgar arte!  Quero ir atrás da arte onde não se vê e das que se vê também. Quero ouvir o artista que faz rede de pesca, quero ouvir a senhora que encanta com seus versos enquanto lava roupa. Quero a pintura que encanta numa moldura chique, mas quero a arte que pulsa e respira junto com quem nem sabe que é um artista.”

Essa é a proposta dessas conversas em forma de entrevista. Primeiro é um prazer pessoal estar com artistas e suas expressões artísticas. E depois, levar sua forma de ver e sentir o mundo também é muito especial para mim.

Hoje é dia de falar com Daniel Ribeiro, artista, proprietário de restaurante, educador, que além de vários quadros já expostos mundo afora, podemos ver muito do seu trabalho em murais pintados por toda a região de Visconde de Mauá. 

Para quem conhece ou pretende subir a serra, observe vários muros de estabelecimentos comerciais com desenhos lindos e muito representativos e verá o trabalho do Daniel embelezando ainda mais esse lugar. E para quem quiser experimentar as pizzas famosas do Daniel, o seu atual restaurante, Food sem Truque está ao lado do campo de futebol da vila de Visconde de Mauá. 

Nessa época, nessa vila de Resende-RJ, cravada na serra da Mantiqueira, chove muito. E essa entrevista foi numa típica tarde de chuva. 

A Casa Beatles, um bar temático de muito bom gosto, nos cedeu a área externa para essa conversa. Enquanto estávamos nesse bate-papo, ao fundo muita chuva, jazz, mpb e rock nacional rolavam em ensaios onde o proprietário Leandro Souto Maior dava aulas para crianças locais e ensaiava com sua banda.

Daniel é morador há mais de 15 anos na região. Sua primeira formação foi em comunicação social, na área de publicidade, e depois se dedicou à educação. Trabalhou como professor de português e capacitação de professores.


“Publicidade aconteceu por essa aptidão ao desenho, as artes visuais. Mas fui trabalhar rápido com a educação. Porque o que eu aprendi na publicidade, essa coisa de influenciar as pessoas ao consumo de coisas supérfluas e idiotas e fazerem elas serem indispensáveis pelo valor dado, também poderia ser feito dentro da educação criando assim algo positivo. Trabalhei mais de dez anos com capacitação para os professores na Fundação Roberto Marinho, PUC, Cederj...  

Vim para Mauá para ter uma melhor qualidade de vida, estar perto da natureza, não para ter uma vida social. Contudo aqui em Mauá, estou em meu 11° Bar! Atualmente o FOOD SEM TRUCK. “

Mas isso não dá um envolvimento social?

“Sim. Um certo envolvimento social. Porém você não precisa participar de tudo. Você fica atrás do balcão, fingindo ser invisível. Isso também é legal, porque te dá uma visão diferente, de observador. Fazer um diagnóstico melhor da noite, dos clientes. Ser o cara que está atrás do balcão e ao mesmo tempo ser o cara que está colocando a exposição na parede. Sem que as pessoas saibam que aquele invisível é o artista.”

Quando começou a desenhar?

“Sempre desenhei. Desde pequeno. Sempre fui o desenhista da escola. Mas nunca quis esse rótulo de artista. Desenho e pinto desde guri, lido bem com isso sem precisar ter uma proposta sempre. Sem precisar ter sempre um engajamento. 

Você não acredita que a arte está vinculada a um engajamento ou posicionamento?

“Eu acredito que a arte hoje é muito rotulada. No momento que se é um artista você tem que ter um posicionamento. Você tem que ter uma obra, uma exposição, um currículo e esquece a ARTE. A minha arte tem tudo isso, mas naturalmente. Eu não quero levantar nenhuma bandeira, mas ao mesmo tempo eu tô levando várias bandeiras com minhas temáticas, com minhas propostas sem a obrigação de nada. Que as pessoas observem ali na arte. Eu não gosto da obrigação que o cara tem que ter bienal e prêmios.

Mas não consigo ficar de boca fechada. Eu chamo para propaganda do restaurante uma questão política que foi o assunto da semana. Tem uma exposição eu corro e faço algo que transmite a minha indignação. Mas aí é uma questão minha. Sinto que é uma luta meio perdida.

A arte é um conceito primitivo, antigo, ligado a magia, como o ser humano se relacionava com os mistérios e acabou que a arte virou uma questão técnica e você precisa se encaixar em uma escola específica. “

Artistas que admira?

“Gosto do Gauguin.  Ser reconhecido como um grande artista e ao mesmo o que ele preferia era as Filipinas e o primitivismo. A loucura do Van Gogh. “


Na sua opinião existe uma comunicação real artística cultural entre o povo local e o turismo atual?


“Não. Não existe essa comunicação. Não tem esse roteiro. Não tem essa valorização. São pequenos nichos que não se comunicam. E o público que está vindo pra cá também não tem uma educação, uma cultura artística, um interesse nesses movimentos. Mas eles veem masterchef e vão falar de textura, de acidez e fazer críticas e olhar pra sua arte e dizer que já fez oficina disso ou tem um primo que faz.”

Redes Sociais, se preocupa com isso na divulgação da sua arte?

“Não, rsrsrs. Meu trabalho é no boca-a-boca. As pessoas veem os murais ou me veem pintado na rua, pega o telefone. Lugar pequeno tem essa vantagem. Agora estou um pouco mais atento por causa do bar Food sem truque, para divulgar o bar, as pessoas pedem e eu não tenho. 

Acredito que a internet é o selo apocalíptico que foi aberto e temos que lidar com ela. Sempre existiu a discussão do que é arte, arte conceitual, arte pela arte e se as redes podem mostrar e se tem gente querendo ver é perfeito, maravilhoso. 

A internet propiciou mais espaço para mostrar sua arte. Hoje tem esse espaço.

Na minha arte eu acredito na forma natural e orgânica de ser transmitida. Vir morar aqui simboliza isso também, para mim. A ideia é não se abrir pro mundo. Caso quisesse isso, ficava em cidade grande. Vir pra cá é querer sossego. Uma rotina de trabalho que seja tranquila. Divulgar muito, traz demandas, preocupações e prazos. 

Esbarram na minha arte e entram em contato. Vários tipos de pessoas. Fazendeiros, donos de pousadas e restaurantes. Pessoal que trabalha com mel, com bares de noite... público bem diversificado. “

A arte fora de galeria. Na rua como em murais, qual a importância para você?

“Deixa o virtuoso e as técnicas para os centros culturais e galerias que são importantes para quem quer discutir isso. Mas tem a rua, a vida, as atitudes e forma como se enxerga a vida e isso também é arte. Agora onde você deposita isso, em termos de produção e produto final, onde vai comercializar isso aí já é escolha e questão de mercado. “


O que está produzindo nesse momento?

“Estou pintando uma igreja. Uma capela amarela lá no Campo Alegre. Tem mais de 100 anos de idade. E eu sempre quis pintar fundo de altar. Arte sacra. “

Por que sempre quis pintar arte sacra?

“Porque é uma forma de eternizar sua arte. É uma chance de trabalhar aquela metáfora, aquela simbologia de acordo com sua ótica. 

Essa capela por exemplo, tem a minha visão do sagrado coração de Jesus. Escapei da mitologia medieval, coloquei o coração como se fosse um girassol. Uma referência a Mitra, sacrificando um boi. Aqui tem muito pastos. Uma parte dos anjos guardiões caídos. “

Você é um religioso?

“Acredito que o universo é um lugar muito misterioso. O ser humano é uma criatura muito misteriosa. Tudo que ele não sabe o que é, ele cria algo para preencher esses mistérios que ao meu ver deveriam continuar misteriosos. 

Acho fundamental você acreditar no insondável e de pelo menos acreditar que é possível. 

Existe tanta coisa que é invisível e existe mais que o visível, por que não pode ser possível aquilo que você consegue imaginar e criar?”

Ok! E você não sente vontade de registrar isso e divulgar?

“Não. Sinto vontade de fazer. As pessoas vão registrar e divulgar se quiserem. Minha vontade era fazer.  Mas acho as redes sociais importantes no mundo de hoje. Fundamental para pessoas que querem se lançar, que tem coisas para dizer e divulgar suas ideias. 

Você tem desapego com sua obra?

“Total! Podem passar a mão de cal por cima rsrs... Inclusive no bar tem uma exposição com um cartaz – MAMÃES E PAPAIS AS CRIANÇAS PODEM TOCAR. As pinturas tem que ter mais cuidado, mas muitas obras são feitas pra cair, para quebrar, para sentir. 

Painel e mural é isso né! Você pinta, mas está exposto a tudo, intempéries, pintarem por cima, eu não assino mural... Minha vontade mesmo nos quadros era assinar atrás. Assino por uma questão de mercado, para poder vender.”


Como você vê a arte e os artistas locais?

“Como eu já conheço aqui há um certo tempo. Eu fui vendo como a coisa foi se transformando. O lugar hoje vive esse clichê de ter que ser um lugar de artista como foi no passado. Eu conheci aqui no passado, poetas, músicos e pintores...

Existe uma imagem de um lugar alternativo, uma ideia que aqui vai se encontrar uma rodinha de violão na esquina. Não é mais assim. Aqui o turismo é encomendado, fechado com a pousada. O direcionamento é comercial mesmo. Não sei nem mesmo até que ponto existe espaço para essa arte mais espontânea. Embora ela tenta sobreviver do seu jeito. Existe uma resistência cultural nesse sentido. Existe a folia de Reis, existe a escultura orgânica do Jorge Brito, existe a resistência do centro Cultural de Mauá, mas está acabando. “

Está se perdendo a valorização da arte? Como você sente a identidade cultural local?

“A região não tem valorizado suas raízes. E não tem identidade cultural até pelo pouco tempo que o ser humano chegou aqui. Quando alguém fala sobre resgatar a cultura local eu penso – Que cultura? Aqui tem só 300 anos de presença humana com os puris, 200 anos de aldeia, 100 anos de município, não deu tempo! Tá em processo de construção. Todo a cultura aqui veio como folclore. Porque país de primeiro mundo tem mito de criação e cultura. País de terceiro mundo tem folclore, não chamavam nem de cultura. É folclore e lenda. 

Como resgatar aquilo que não tem. Acredito que as pessoas que poderiam ser as verdadeiras detentoras da cultura local estão morrendo e não estão contando sua história.

Não vejo as pessoas que estão gerando o turismo na região atentas a isso. “

Você não vê resistência local?

“Não, não vejo. Para ter resistência, precisa se ver como algo. Precisa ter uma identidade e as pessoas não se enxergam. Elas querem ver uma identidade na música que vem de fora, na moda de fora...

Como educador, que é um trabalho de formiguinha, aos poucos, chamando para o diálogo, eu vi em uma eleição o trabalho de 30 anos indo por água abaixo. Isso causa um certo desânimo. E não vejo a renovação nas próximas gerações. Vejo a garotada aqui muito perdida.”

Tem vontade de voltar a dar aula?

Tenho sim. Professor mesmo... mudar o mundo através da educação. Eu me vejo como educador. Eu me vejo como artista. Só não gosto do rótulo. 

Projeção do futuro?

“Complicado hein... Apesar que Daniel é nome de profeta rsrsrs!!

Eu acho que as pessoas hoje estão querendo cozinha com aço escovado, tudo padrão. Arte conceitual. Não importa se sua arte é genuína, verdadeira, forte, autêntica. 

Acredito que o ideal para um lugar seria se todos pudessem ser ouvidos. “

Mas você vê a gente caminhando para isso?

“Não... vejo a gente caminhando para o padronizado. Grama sintética, cozinha azulejada, obras em final de mandato... É isso.”

Você se enxerga nesse lugar?

Não. Me vejo indo mais para dentro do mato. Campo Alegre, Bagagem, Santo Antônio... vamos entrando e interiorizando. É natural na minha arte como resistência, mas não como intenção. É natural a gente lutar porque dói e tem doido muito.” 

* Mani Ceiba (Fernanda Vaz) é desenhista, ilustradora, ceramista. Artista plástica formada pela EPA e faz bacharelado em artes visuais. Faz parte do coletivo Pavio Curto. Membro da direção do grupo de artes borboletadágua.