quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Base x profissional, os desafios da promoção

Por Felipe Ramos, Hugo Alexandre e Leonardo Klotz*


O processo de transição da base para o profissional é uma das partes mais importantes no desenvolvimento de um bom jogador de futebol. Ocorrendo principalmente na categoria sub-20, os jogadores são escolhidos a dedo pela comissão técnica da equipe principal, de acordo com seus próprios critérios de análises e/ou carências no elenco.

A base, como muitos dizem, é a escola do futebol, na qual os jogadores ainda em formação aprendem os princípios básicos para qualquer atleta, os chamados de fundamentos. A realização desse processo feita com calma e de maneira profissional potencializa o talento dos jovens e os transforma em diamantes que, posteriormente, brilharão na equipe principal.

Ao se destacar nas categorias iniciais do futebol, os atletas começam a chamar a atenção dos treinadores do profissional, e assim, logo recebem uma oportunidade para se juntarem com os mais experientes. É fundamental para o desenvolvimento desses jovens que o processo de transição seja realizado com cuidado e no momento adequado.  

A idade média para que essa mudança de categorias aconteça é aos 20 anos, porém é cada vez mais frequente que atletas mais novos, com 18, 17 e até mesmo 16 anos, atuem na equipe profissional.

A transição da base para o profissional é um processo contínuo, não acontece da noite para o dia, como nos diz o preparador físico do profissional Barra Mansa Futebol Clube, Marcus Vinícius:

 “Primeiramente, o atleta tem que ter passado por toda a base, seja no clube ou em outro. O atleta precisa ter essa continuidade. A gente vai colocando aos poucos no profissional. Ele vai treinar com o elenco de cima uma vez, depois aumenta pra uma semana e aí, dependendo da necessidade da equipe profissional, ele já fica por lá mesmo”, comenta. 

Para subir à equipe profissional, o jovem deve reunir algumas características básicas que o possibilitem compor o elenco principal, além de demonstrar sua qualidade. 

“As características que mais importam na hora de escolher um atleta são: a parte técnica, a parte física, se é um atleta mais forte, porque se é mais franzino dificulta um pouco. E por último a parte psicológica”, afirma o preparador físico.

Como já dito, a base é a escola do futebol, e faz com que os atletas fiquem prontos fisicamente, tecnicamente, emocionalmente e psicologicamente para exercer sua profissão em alto nível nas categorias superiores. Porém nem sempre isso acontece, como nos disse o jogador João Victor, recém-promovido ao profissional do Barra Mansa F.C.

Base do futebol Barra Mansa, João Victor 


“Confesso que não me senti totalmente preparado. Em alguns momentos duvidei de mim. Ainda mais no começo, quando retornei ao futebol, foi um processo difícil, mas graças a Deus deu tudo certo e hoje eu me encontro preparado para estar onde estou”, conclui.

Esse sentimento compartilhado por João é comum entre os atletas jovens, principalmente por haver muitas diferenças entre a base e o profissional. Uma das principais é a pressão/cobrança sofrida pelos atletas, tanto por intermédio da torcida quanto de si próprio.

“O trabalho na base é para desenvolver o atleta, para ele mesmo conhecer suas próprias características. Cabe à comissão técnica extrair o melhor e corrigir o que é pra ser corrigido. No profissional, creio que o maior desafio seja se adaptar ao elenco, ao modelo tático para trabalhar situações que possam ocorrer no jogo. O trabalho é mais maduro” afirma João.


A parte psicológica

O aspecto psicológico é uma das principais áreas de um atleta e ganhou atenção especial nos últimos anos. Afinal, um esportista que sabe lidar bem com sua própria cabeça tem muito mais facilidade de extrair o máximo de seu corpo, melhorando a performance.

A forma com que os recém-promovidos lidam com as cobranças, expectativas, derrotas e vitórias é fundamental para seu desenvolvimento. Tudo isso não é fácil e, se não tiverem todo o suporte para passar por essas situações, pode-se gerar um problema que afete até outros âmbitos da vida do jogador.

Um grande exemplo que recentemente chocou o mundo do esporte foi a desistência da principal ginasta americana, Simone Biles, a participar da final olímpica no solo da modalidade, além de abrir mão de competir no salto e nas barras assimétricas.  

“Temos que proteger nossas mentes e corpos, não é apenas ir lá [competir] e fazer o que o mundo quer que façamos. Nós não somos apenas atletas. No fim do dia, nós somos pessoas, e às vezes temos que dar um passo atrás”, disse a ginasta em entrevista à BBC.

Nos últimos dez anos, os casos de depressão cresceram 18%. No esporte estes índices também tem aumentado. Segundo estudo realizado pela Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol (FIFpro), os jogadores profissionais sofrem mais com a saúde mental do que o público em geral — e 38% dos jogadores que estão em atividade no mundo sofrem sintomas de depressão e/ou ansiedade.

A avaliação psicológica nos atletas da base que estão prestes a subir para a equipe profissional é feita de maneira conjunta com outros setores do clube. Desta forma, é possível ter um diagnóstico mais completo sobre o jogador, como destaca Marcus:

“A gente identifica primeiramente no dia a dia. Tem todo um conjunto com o preparador físico, o treinador, a comissão técnica em geral, nutricionista, fisioterapeuta e o psicólogo. No cotidiano, já identificamos quais atletas podem estar passando por alguns problemas específicos e aí já rola uma conversa para que se possa passar confiança a eles.”

Ter uma mente saudável é fator crucial em momentos decisivos e de grande pressão. São nessas situações adversas que toda a preparação de uma boa base faz a diferença.

“Vemos quem está realmente pronto nas horas mais difíceis, como em decisões importantes de campeonatos, nas quais atletas de bom nível psicológico desenvolvem uma maior facilidade de dominar a situação.”, completa o profissional.


Aproveitamento da base no Barra Mansa F.C

Em todo clube, a base é seu maior patrimônio, pois é nela é que se desenvolvem os pratas da casa. Ou seja, jogadores que possuem uma grande ligação com a instituição e sua torcida. Além disso, futuramente podem gerar grande receita aos cofres do clube e se tornar figuras históricas do time.

O aproveitamento dos jovens na equipe principal do Barra Mansa é realizado de forma progressiva e natural. O atleta é preparado durante todos as etapas da base até chegar no momento ideal para essa evolução.

São introduzidos apenas alguns atletas na pré-temporada do elenco profissional. Geralmente os que mais se destacam na equipe sub-20, afirma Marcus Vinícius.

Base do futebol Barra Mansa, Marcus Vinicius

“Os atletas que sobem logo no início são os de maior destaque no sub-20 e também os jogadores das posições carentes no plantel principal. Porém isso varia muito de acordo com a necessidade da equipe, principalmente a financeira, quando o clube não tem dinheiro para contratações mais caras e acaba subindo os jovens para suprir as necessidades.”

Diversos clubes de menor poderio financeiro utilizam seus jovens como uma válvula de escape em momentos difíceis, como lesões ou vendas dos jogadores do elenco profissional. Com isso, acabam subindo suas “crias" cedo demais e queimando etapas no desenvolvimento do atleta. 

Daniel Martins, torcedor do Barra Mansa, acredita que o aproveitamento dos jovens na equipe profissional pode ser analisado de duas formas, entretanto tende a ser mais negativo que positivo.

“Vejo que o Barra Mansa tem usado esses jovens não como um planejamento de carreira, mas sim como necessidade. Então, quando acontece isso, se eles não tiverem um trabalho psicológico, físico, tático e técnico muito bom, o aproveitamento destes atletas acaba sendo ruim. Muitas vezes achamos que quanto mais atleta da base tiver no profissional melhor, mas não é assim.”, afirma.

Em clubes com condições financeiras melhores este problema é muito menos recorrente. Segundo o site do Fluminense, o clube das Laranjeiras só em 2021 utilizou 25 atletas da base em meio ao elenco profissional. Marca que supera seu maior feito, de usar 20 jovens na categoria de cima, em 2002.

Entre todos os atletas, destaca-se o jovem Miguel, de apenas 16 anos. Ele fez sua estreia no Campeonato Carioca contra o Resende e se tornou o jogador mais jovem a vestir a camisa tricolor na era profissional (desde 1933).

O grande aproveitamento das categorias de base é resultado, de acordo com o clube, do alto investimento em multidisciplinaridade, com a integração de profissionais de várias áreas, como fisioterapia, fisiologia, preparação física, nutrição e psicologia.

“Eu acredito que o Barra Mansa não aproveita bem seus talentos, porque, se você olhar a base de outros clubes da região, vai encontrar diversos atletas oriundos daqui. Isso se deve à má situação financeira do clube, que acaba pulando etapas com esses atletas, e na linguagem popular do futebol ‘os queimando’”, comenta Daniel.

Ao analisar o caso do Fluminense e do Barra Mansa, fica evidente que os profissionais em torno do atleta e estrutura disponibilizada pelo clube são fundamentais na potencialização de seus talentos. Segundo Daniel, existe essa carência na equipe do Sul do Estado do Rio de Janeiro.

“Será que esses atletas que acabaram de subir estão tendo uma formação adequada? Acredito que falte ainda no Barra Mansa alguns profissionais formados e um departamento de fisiologia próprio para a base, para melhorar o desenvolvimento dos jogadores.”, finaliza o torcedor.

O surgimento diário de promessas no futebol brasileiro e seu sucesso no profissional estão diretamente ligados com a maneira pela qual são lapidadas. De nada adianta possuir muito talento e não estar em um local onde haja a estrutura necessária para o melhor desenvolvimento.


* Estudantes de Jornalismo

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