Em 1997, a Fazenda da Pedra, em Quatis, com 1.049 hectares, onde atualmente está localizado o Assentamento Irmã Dorothy, foi identificada como imóvel que não cumpria com a função social da propriedade. Em 2004, o Incra iniciou o processo para criação do assentamento e, no dia 26 de outubro de 2005, famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barra Mansa ocuparam o local, reivindicando a reforma agrária.
Decreto assinado pelo presidente Lula no
seu primeiro mandato autorizou o processo judicial de desapropriação em 19 de
outubro de 2006. No dia 15 de outubro de
2014, foi determinada pela Justiça a imissão na posse do imóvel pelo Incra e em
2015, foi finalmente criado o Assentamento Irmã Dorothy. O seu nome homenageia
a missionária Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de
latifundiários em Anapu, no Pará.
No dia 15 de outubro de 2025, foi
concluído pelo Incra o processo de seleção das 45 famílias assentadas do PA
Irmã Dorothy com a entrega do Contratos de Concessão de Uso (CCUs) e assinatura
dos contratos e projetos de crédito na modalidade Apoio Inicial no valor de R$
8 mil. O Incra também formalizou para a Associação do Assentamento Irmã Dorothy
a autorização de uso do trator obtido através de emenda parlamentar do deputado
federal Lindbergh Farias (PT).
A data foi marcada por uma grande festa e muita emoção
das famílias assentadas, parentes, amigos, e dirigentes do MST, como a deputada
estadual Marina do MST, além de gestores do Incra, como a superintendente
regional Maria Lúcia de Pontes e outros dirigentes.
“Quero afirmar a gratidão, respeito e admiração pela luta de vocês. Uma luta que também é, não apenas minha e da Maria Lúcia, mas de toda a equipe de servidores do Incra”, discursou emocionada a chefe da Divisão de Obtenção de Terras do Incra/RJ Anida Domicini.
Em sua fala aos assentados e assentadas, a
superintendente regional do Incra/RJ Maria Lúcia de Pontes destacou a
participação das famílias e o momento atual do país: “Foi um processo longo e
desafiador. Além da resistência do expropriado, que ainda ocupava a sede da
fazenda, encontramos um questionamento judicial ao primeiro edital de seleção
de famílias iniciado no governo anterior que desconsiderava a luta pela terra. Os técnicos do Incra também
encontraram muitos entraves para a elaboração do parcelamento dos lotes e em
alguns momentos, quase desanimamos, mas contamos com o diálogo e trabalho em
conjunto com vocês apontando os caminhos para tornar esse momento
possível".
A superintendente do Incra/RJ também esclareceu a
importância das cláusulas e compromissos do Contrato de Concessão de Uso (CCU)
que foi entregue e a responsabilidade de cada família. “Vocês fazem parte de um
processo de mudança da sociedade. Não é só acessar um lote da reforma agrária,
é construir uma forma diferente de se relacionar com a terra, com respeito ao
meio ambiente, à comunidade e ao território. Enfrentar os desafios de forma
coletiva. Isso é transformar a sociedade”, afirmou ela.
Quem já estava na terra
Segundo o Edital do Incra nº
112/2024 de Seleção das Famílias para o Assentamento Irmã Dorothy, é garantida
a preferência "a quem trabalhe no imóvel desapropriado na data da vistoria
de classificação e aferição do cumprimento de sua função social, como posseiro,
assalariado, parceiro ou arrendatário'', situação de Aníbal, que teve a
inscrição deferida e pontuação suficiente para estar entre as 45 famílias
selecionadas. "Além de criar gado leiteiro, pretendo plantar milho, feijão
e aipim", garantiu ele.
O início da ocupação
Vanor da Silva. o Pelé, 66
anos, participou da ocupação da então Fazenda da Pedra. Ele lembrou a madrugada
do dia 26 de outubro de 2005. "A gente ia entrar pelo outro lado, mas
estava cheio de polícia. Éramos mais ou menos 120 famílias de carro, moto,
carroça. Chegamos na porteira e abrimos o cadeado. O tempo passou e muita gente
desistiu, ficou doente, não conseguiu ficar. Em um momento, éramos só seis
famílias acampadas. Mas resistimos!", disse emocionado Pelé, que é casado
com Arlete Ferreira, conhecida como Pelezinha, de 80 anos.
Na tarde do mesmo dia 26,
Antônio Elias Camargo, o Grande, hoje com 58 anos, passou próximo à ocupação
transportando dois cavalos em uma caminhonete com um colega. "Eles nos
convidaram a participar. Antes só conhecia os sem-terra de novela da Globo. Ali
começou minha trajetória no MST, que me deu uma oportunidade. Antes eu era uma
cara meio descabeçado. Fiquei acampado e passei a atuar no setor de frente de
massa da organização. Não podia deixar de estar aqui hoje. É gratificante ver o
povo assentado depois de tanto esforço", comemorou Grande.
Um ano depois quem chegou ao Irmã
Dorothy foi Marina Lucas Maurício, atualmente com 77 anos. "Eu cheguei
aqui numa segunda-feira de manhã, em 2006, e
fiz o meu cadastro. Éramos quatro e montamos nossa barraca de lona.
Minha irmã e mais dois amigos. Todos desistiram. Só eu fiquei. Já tem 19 anos
de muita luta e sofrimento. Não tínhamos água e não temos luz. Não temos uma
vida normal. Mas hoje tivemos uma grande vitória. Saber que estamos legalizados
valeu a pena ter lutado. Agora vou poder trazer minhas netas. A paixão delas é
isso aqui", festejou a assentada.
Novos
tempos
Realidade bem diferente vive a assentada
Karolina Luisa de Araújo, a Karol, de 43 anos. Ela não foi acampada nem
trabalhava na antiga Fazenda da Pedra. Ela explicou a sua motivação em
participar da seleção de famílias para o assentamento. "Eu conheço pessoas
aqui, e também venho de família de agricultor. Meu pai arrendava terra,
trabalhava como retireiro e com plantações também. E isso despertou o meu
interesse. Eu gosto de mexer com mudas de plantas e tenho paixão por
peixes", revelou ela.










Sem comentários:
Enviar um comentário