segunda-feira, 5 de julho de 2021

A LUTA CONTINUA

Movimentos populares se reinventam na pandemia
Contato com a base foi prejudicado pela dificuldade de acesso à internet


Por Alvaro Britto

Da noite para dia, em março de 2020, a pandemia transformou radicalmente as relações entre as pessoas.  Mesmo aqueles que acreditavam que seria apenas uma ‘gripezinha’, foram obrigados por decretos e leis municipais e estaduais a seguirem o distanciamento social. Muito se fala no trabalho e ensino remoto, nos shows e peças de teatro virtuais, nas palestras e debates online, agora conhecidas como lives...

Mas...e como ficaram os movimentos, organizações e coletivos populares que têm no trabalho de base e no contato com seus associados e com o público-alvo que buscam representar o principal combustível de sua atuação? Para conhecer um pouco dessa realidade através da voz de alguns de seus representantes, o Pavio Curto ouviu lideranças da juventude, mulheres, LGBTQIA+, negros e profissionais da educação do Sul Fluminense.    

As entrevistas foram realizadas em uma manifestação ‘Fora Bolsonaro’, realizada em Resende na manhã do sábado, dia 19 de junho. Um raro momento em que os movimentos populares foram para as ruas, solicitando dos participantes a utilização de máscaras e álcool 70 – inclusive distribuídos durante a atividade – e o respeito ao distanciamento social, sem aglomerações. “Estamos nas ruas porque esse governo é mais perigoso que o vírus!” – esse é o discurso comum dos movimentos populares de oposição que voltaram às ruas em maio e nunca mais saíram, exigindo o afastamento do atual presidente. 



Yuri William: “Governo Bolsonaro legitima o preconceito e a violência com o discurso do ódio”

Funcionando desde julho de 2019, o Coletivo Seja é um movimento LGBTQIA+ de mobilização social e afirmação da diversidade. Segundo informou o militante Yuri Willan, antes da pandemia foram realizados eventos e rodas de conversa presenciais em Porto Real, cidade sede do coletivo. “Com a pandemia, precisamos buscar novas formas de dialogar com as pessoas”. 

Lives semanais sobre temas como saúde, educação, cultura e trabalho foram realizadas pelo Seja em 2020. “Com a pandemia, nossa atuação foi ampliada para a região, alcançando pessoas de Resende, Quatis e Itatiaia, além de Porto Real”, explicou Yuri. Mas, segundo ele, 2021 chegou junto com a saturação em relação às lives.

- Passamos a usar outras ferramentas como a publicação de vídeos curtos, fotos e cards no feed, mas sempre mantendo o conteúdo crítico – explicou Yuri Willan. Sobre a relação com as prefeituras e câmaras de vereadores da região, ele avaliou que há muitas dificuldades de diálogo em Resende, Porto Real e Itatiaia. “A exceção é Quatis, onde o poder público é mais avançado.  Mas estamos ganhando voz na sociedade, sinto que tem crescido o interesse nas pautas LGBTQUIA+”.

Yuri denunciou também a invisibilização da violência. “Não há registros nas delegacias e com isso não há políticas públicas específicas”. Segundo ele, a comunidade trans é a que mais sofre violência, inclusive policial. “O governo Bolsonaro legitima o preconceito e a violência com o discurso do ódio”, afirmou o militante do Coletivo Seja.  

Priscila Messias: “A violência contra a mulher tem aumentado nesse período”

A União Brasileira de Mulheres de Resende (UBM) vem se reinventando na pandemia mas tem enfrentado muitas dificuldades. “Além dos problemas de acesso à internet, as mulheres têm vivido duplas e até triplas jornadas, o que complica a participação em nossas lives”, explicou Priscila Messias, coordenadora da entidade, informando que a comunicação através de grupos de whatsapp tem trazido bom resultado. 

Ela informou que a UBM vem buscando atuar em parceria com outros movimentos feministas, principalmente no apoio às mulheres da periferia onde as carências são maiores. “Além de cestas básicas, estamos nos mobilizando para distribuir absorventes íntimos”, explicou Priscila, que também afirmou que “a violência contra a mulher tem aumentado nesse período”.

- Os índices de feminicídio cresceram no estado do Rio de Janeiro e em Resende infelizmente não é diferente. Essa situação é agravada porque a cidade não dispõe de delegacia com atendimento especializado à mulher – denunciou a coordenadora da UBM. 

Priscila lembrou também que muitas mulheres caíram no subemprego na pandemia. “Na crise, a mulher é a última ser admitida e a primeira a ser demitida”. Segundo ela, muitas mulheres da periferia são arrimos de família, dificultando ainda mais a sobrevivência.   

Sebastião de Oliveira: “O racismo cresceu na pandemia”

- Os povos negros e indígenas foram os mais afetados pela pandemia – declarou Sebastião de Oliveira, morador de Resende e militante do coletivo Agentes de Pastoral Negros. Ele informou que a Coalizão Negra Por Direitos tem liderado e articulado as lutas, sendo que a prioridade nesse momento é a garantia da sobrevivência das famílias através da arrecadação e distribuição de alimentos nas periferias. 

Tião, como é conhecido, disse que o movimento negro também está na luta pela vacina e pelo auxílio emergencial de R$ 600. “O racismo cresceu na pandemia”, lembrando os casos de entregadores e o do Carrefour, onde, segundo ele, a pressão social obrigou a empresa a firmar um acordo onde se compromete a executar um Plano Antirracista com ações que vão desde relações de trabalho, canal de denúncias, treinamentos para dirigentes e trabalhadores em relação a atos de discriminação, compromissos em relação à rede de fornecedores, até a reparação de danos morais coletivos. 

O militante do movimento negro disse sentir muitas dificuldades de atuação na região nesse período da pandemia. “As ações têm acontecido de forma isolada, como a entrega de cestas básicas em algumas comunidades”. Ele disse que o movimento ‘Vidas Negras Importam’, que teve origem nos EUA, tem influenciado na conscientização principalmente de jovens negros no Brasil, já que a internet possibilitou a globalização das lutas. 

Daysiane Alves: “A reforma do ensino médio é um duro golpe contra a Educação brasileira”.  

Segundo a diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE-RJ), Daysiane Alves, o movimento sindical está se reinventando durante a tragédia da pandemia. “Mas o trabalho de base foi muito prejudicado, pois tanto as aulas como a nossa comunicação com a categoria dependem do acesso à internet, que ainda é precário para boa parte dos trabalhadores, daí que uma das nossas principais bandeiras é o acesso digital universal público e gratuito”, disse ela.

Daysiane anunciou a luta prioritária do SEPE: “A reforma do ensino médio é um duro golpe contra a Educação brasileira”. Segundo ela, a consequência da proposta é a formação praticamente exclusiva para o mercado de trabalho, criando obstáculos para a opção pelo ensino superior. “Isso é um projeto claro e se combina com os ataques e o sucateamento da universidade pública por parte esse governo, que rejeita o pensamento crítico e as ciências humanas”, denunciou a sindicalista.

Ela informou também que o SEPE está realizando uma parceria com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) com o objetivo de dar visibilidade à luta pela reforma agrária e em defesa da agricultura familiar, através do apoio na comercialização de produtos agroecológicos dos assentamentos da região. “Não é apenas uma atividade de venda de produtos orgânicos mais baratos. Estamos conversando sobre sustentabilidade, produção e distribuição coletiva, valorização do trabalhador rural. Pretendemos também realizar vivências nos assentamentos”, explicou Daysiane.  

Alessandro Henrique: “Pretendemos fortalecer a atuação junto aos grêmios estudantis”

Na avaliação do militante da União da Juventude Socialista (UJS) em Resende, Alessandro Henrique, a pandemia dificultou muito o trabalho de base junto aos estudantes devido ao ensino remoto. “Temos realizado debates e atividades de conscientização em lives, mas muita gente não tem acesso à internet”, explicou ele.

Alessandro disse que percebeu o aumento do interesse da juventude na política e que a aposição a Bolsonaro tem crescido entre os jovens. Alessandro revelou que a UJS já está planejando suas ações para quando a pandemia terminar. “Pretendemos fortalecer a atuação junto aos grêmios estudantis e realizar banquinhas nos bairros com atividades para a juventude”. 

sábado, 3 de julho de 2021

Procurador Julio Araujo lança livro no Sul Fluminense

O procurador Julio Araujo Jr. com membros da comissão organizadora do evento

 Emoção e disposição de luta marcaram evento virtual organizado pelos movimentos sociais com o apoio do Pavio Curto

Por Alvaro Britto

Foi diferente e emocionante. Os personagens saíram das páginas do livro e foram para a rede social contar um pouco de suas lutas e conquistas durante o período em que o procurador da República Julio Araujo Jr. atuou em Volta Redonda e região (2014-2017). Isso aconteceu na noite de 29 de junho, quando foi lançado de forma virtual o seu livro ‘Ministério Público e Movimentos Sociais: encontros e desencontros’. 

Coordenado pelo Observatório dos Direitos Humanos do Sul Fluminense, com o apoio do Pavio Curto e em parceria com diferentes segmentos e movimentos sociais, o evento, mediado pela professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Alejandra Esteves, abordou temas emblemáticos, frutos de mobilizações e conquistas, presentes na narrativa do livro. Territórios quilombolas, luta pela moradia, reparações históricas da ditadura, opressões de gênero, questões socioambientais e o direito de resposta em rádio com foco nos direitos humanos foram alguns deles.

Sobre o livro

- Refletir sobre o papel do Ministério Público na promoção de direitos fundamentais é uma das minhas preocupações. Afinal, de que forma povos indígenas e quilombolas, a população negra, os trabalhadores sem-terra e sem teto, as mulheres, a população LGBTQIA+ e todos aqueles que se encontram em situação de flagrante inferioridade na garantia de direitos e na representação política poderão ter no Ministério Público um verdadeiro parceiro e aliado? – questionou o autor Julio Araujo Jr. 

Ele informou que a nova ponte Dom Waldyr Calheiros (Niterói- Aterrado, em Volta Redonda) e a reparação simbólica de um passado violento na cidade, bem como os movimentos sociais contra a privatização da memória, articulados pela Comissão da Verdade, fazem parte de dois textos do livro.

Alvaro Britto apresentou o caso de direito de resposta coletivo conquistado em 2017

Pavio Curto presente

Além do apoio na organização e divulgação, o Pavio Curto participou do evento por meio de um dos membros da sua coordenação, o jornalista Alvaro Britto, que apresentou o caso do direito de resposta coletivo conquistado em 2017 junto ao programa Repórter Policial do Gato Preto, da rádio Difusora Barra do Piraí. A atuação do Ministério Público Federal, liderado pelo procurador Júlio Araújo Jr., foi decisiva para atender a uma demanda dos movimentos sociais, em especial o segmento LGBTQIA+. 

No programa, o apresentador atacava as minorias com discurso homofóbico, machista, sexista, de ódio e violência contra adolescentes infratores, buscando desqualificar a defesa dos direitos humanos. Com a conquista do direito de resposta coletivo, até então inédito no Estado, durante seis semanas foram realizadas entrevistas diárias de 30 minutos com representantes de diversos movimentos e segmentos sociais, além de spots ao longo da programação, totalizando 1 hora por dia de mensagens em defesa da diversidade e dos direitos humanos. 

Quem é o procurador?

Julio José Araujo Junior é mestre em Direito Público pela UERJ e doutorando em Direito Público na mesma universidade, além de especialista em política e sociedade no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (IESP/UERJ). É membro do Ministério Público Federal desde 2012, com atuação nas Procuradorias da República no Amazonas, em Volta Redonda (RJ) e em São João de Meriti (RJ). 

Atualmente está lotado na Procuradoria da República no Rio de Janeiro. É coordenador do Grupo de Trabalho Prevenção de Atrocidades Contra Povos Indígenas (6ª Câmara do MPF), do Grupo de Trabalho Reforma Agrária e Conflitos Fundiários (PFDC/MPF) e do Grupo de Trabalho Povos e Comunidades Tradicionais (CNMP). Foi juiz federal, membro da Advocacia-Geral da União (AGU) e servidor do MPF. 

Julio Araújo Jr. também é colaborador do Pavio Curto, trazendo por meio de artigos informações e debates sobre a atuação do Ministério Público Federal na garantia de acesso à Justiça e a políticas públicas aos segmentos sociais mais vulneráveis. 




sábado, 26 de junho de 2021

Incêndio na Oca Kupixawa no Parque Laje causa tristeza e revolta

Por Mani Ceiba e Alvaro Britto

O cacique Ninawa Inu do Povo Huni Kui foi entrevistado pela equipe de reportagem do Pavio Curto na tarde do dia seguinte ao incêndio, ocorrido na noite da sexta-feira, dia 25 de junho. Ninawa é cacique chefe da Federação do Povo Huni Kuin do Acre, que reúne mais de 16 mil indígenas em 127 aldeias. Cerca de 4 mil Huni Kuin também vivem no Peru. 

A Oca Kupixawa foi construída em 2014 e é uma casa de cura do povo Huni Kuin, também utilizada por indígenas de outras etnias e outras pessoas que visitam o Rio de Janeiro para reuniões. Elas são acolhidas para fazer rituais, conversas e convivência. Essa Oca é um espaço de memória de grande importância para o povo Huni Kuin, sendo a primeira que foi construído fora do Acre por inciativa do coletivo Guardiões  Huni Kuin do Rio de Janeiro, criado em 2010. 


Ninawa Inu reconhece como o governo Bolsonaro e seus aliados travam uma verdadeira guerra contra os indígenas, semeando o ódio, a intolerância e a violência. Ele lembrou a repressão violenta da polícia contra indígenas em recente manifestação realizada em Brasília e outro incêndio também ocorrido há poucos dias em uma aldeia de Minas Gerais. “O governo age com covardia ao tentar tirar territórios do indígenas para a exploração dos seus recursos naturais pelos capitalistas”, denunciou o cacique do povo Huni Kuin.

Ele pediu apoio para a mobilização dos indígenas sobre a votação que acontecerá no próximo dia 30 de junho, quando o Supremo Tribunal Federal decidirá sobre a validade do chamado marco temporal. Interpretação defendida por ruralistas e setores interessados na exploração das terras indígenas, o marco temporal define que os povos originários só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. Ou seja, o primeiro povo que chegou no Brasil há muitos séculos seria expulso de suas terras. 

NÃO ao marco temporal!! Pavio Curto apóia essa luta!!

Assista aos vídeos no canal TV PAVIO CURTO.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

O reflexo da pandemia na jornada de trabalho feminina

Em meio à crise causada pela Covid-19, mulheres lideram taxa de desemprego



 Ilustração: Clóvis Lima 


Por Polliana Amorim e Ana Júlia 

Durante anos as mulheres vêm lutando contra a desigualdade de gênero existente no mercado de trabalho. Dificuldades como conciliar os afazeres domésticos com o serviço, a diferença salarial e o tratamento no ambiente de trabalho são exemplos do que elas enfrentam no dia a dia. Através de muita luta, o cenário vem mudando para melhor, porém, após o início da pandemia da Covid-19, em 2020, foi resguardado que mais da metade das mulheres estão fora do mercado de trabalho.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2020, afirmaram que o número de mulheres empregadas na segunda metade do ano foi de 45%, sendo o menor desde 1990.  Além disso, o número de trabalhadoras em tempo integral também diminuiu, pois muitas mulheres buscam serviços que ofereçam a possibilidade de conciliar o trabalho com a vida de mãe, visto que algumas crianças ainda estão estudando remotamente.

Foi comprovado também que, mesmo quando ambos os pais estão de home office, os homens não realizam a mesma quantidade de trabalho doméstico e não têm o mesmo cuidado com os filhos.

A empreendedora Elisângela Barbosa, moradora de Barra Mansa, decidiu se arriscar a abrir um novo negócio durante a pandemia. Em março de 2021, ela abriu uma loja de bolos próxima à sua casa. Porém, ao conquistar esse novo espaço, veio a dificuldade de consolidar seu trabalho com o cuidado com os filhos, que têm estudado através do ensino remoto.

"Foi desafiador abrir um negócio em casa em meio a todo esse caos, mas eu consegui. Porém, nesse momento fica um pouco difícil separar a vida de empreendedora com a de mãe. Optei por manter meu filho mais novo, que ainda está na 6ª série, em casa por segurança, mas confesso que cuidar de casa, da loja e ajudar ele nas atividades da escola não está sendo fácil", explicou Elisângela.

 

Dificuldade no meio de trabalho jornalístico

Durante a pandemia, o jornalismo tem sido essencial para divulgar notícias importantes e verídicas para a população. Em uma recente pesquisa feita pelo Serviço Nacional de Auxílio à Justiça e Cidadania (SENAJ), foi mostrada a dificuldade enfrentada pelas mulheres jornalistas que são mães e também sobre como a sobrecarga da mulher é invisibilizada.

Entretanto, o estudo mostrou que a maioria das jornalistas são contra a volta das aulas presenciais, apesar da complexidade de administrar a jornada de trabalho com a maternidade.

A jornalista Paula Zarth Padilha, dirigente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR) e Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) – onde em agosto de 2020 ajudou a construir coletivamente uma pesquisa sobre as condições de trabalho das mães jornalistas na pandemia – conta sua perspectiva como mãe e trabalhadora. Paula, que também é mãe solo, relata que a pandemia foi uma grande reviravolta em sua rotina e que não consegue manter a mesma vida de antes.

"Faz dois meses que eu me demiti do meu antigo trabalho, pois em casa eu percebi que eu não estava dando conta das responsabilidades e demandas. Ele era de jornada parcial, era proporcional ao que eu utilizava como complementação de renda por conta da responsabilidade exclusiva que eu tenho com a minha filha", disse.

"Moramos somente eu e ela, então todos os tipos de responsabilidade por ela são minhas. Antes da pandemia eu levava e buscava na escola, ao médico ou em atividades culturais", complementou.

A jornalista ainda ressalta que, nessa nova realidade, é complicado entender que o significado de lar agora é outro.

"Antes toda essa nossa rotina era essencialmente na rua, nossa casa era um dormitório e um ambiente para passarmos o final de semana. Essa foi a mudança estrutural mais drástica. A dimensão da gente passar o tempo todo em casa agora é muito diferente", expressou.

O espaço para mulheres em empresas, no cenário político e em posições de liderança sempre foi pequeno. Desde o último ano, a mulher tem se desdobrado, se reinventado e até mesmo se submetido a injustiças para manter sua renda e reivindicar seu lugar no mercado de trabalho. Porém, isso não é apenas o reflexo da pandemia, mas também as consequências do machismo estrutural em nossa sociedade.






SOS Manas, mulheres para toda obra!

Crédito da imagem/ Caroline Silva

“De tijolo em tijolo se repara o mundo”

 Por Julia Duppré

Gabriela Castro se apresenta como soldadora, eletricista, artista e Fernanda Dias é a empresária a empreendedora da dupla. Com o início da pandemia, o trabalho de recreadora em eventos paralisado, sem previsão de novos contratos, Gabriela mirava o horizonte sem expectativas, até que Fernanda com o seu olhar perspicaz fez uma previsão “já que as pessoas estão dentro de casa, e vendo que ela precisa de reparos, e se montássemos uma empresa para fazer esses tipos de serviços?”. O serviço foi oferecido a amigos próximos, familiares, o primeiro post foi feito e já no seguinte dia tinham 800 curtidas com muitos comentários entusiasmados!

E assim surgiu a “S.O.S Manas” uma empresa que faz qualquer tipo de reparos em casas; elétrica, solda, pintura, montagem de móveis, jardinagem e otras cositas mas. Depois de 7 meses de muito trabalho, a pequena maletinha de ferramentas fomentou a compra do carro que está abastecido de sonhos, para adquirir ferramentas mais robustas e parcerias para o projeto “Reparo Social”, um lembrete para as manas de sua ancestralidade e sua origem pobre, em que mensalmente, atuam com 100% de gratuidade de mão-de-obra para reparo em casa de mulheres pretas. “Se tivéssemos uma parceria com as empresas de material de construção para auxiliar essas mulheres e famílias em vulnerabilidade, conseguiríamos ampliar esse atendimento e proporcionar melhores condições de vida a elas”, sentenciou Gabriela.

“O nosso primeiro post, foi feito em uma época em que ocorreu um feminicídio, e nos pareceu que o olhar sob a nossa prestação de serviço mudou, recebemos mais comentários nos parabenizando, nos acolhendo e nos incentivando a continuar”, avaliou Fernanda. A triste realidade da violenta opressão que esse ideário de sociedade brasileira machista, patriarcal e heteronormativa exerce sobre milhares de indivíduos culminando com a sua morte. Existem situações que as manas vivenciam o olhar atento de muitos homens e algumas mulheres durante o serviço, mas “nós entendemos que como nos colocamos nesse lugar, estamos abertas também para iniciar essa comunicação e mudar os paradigmas. Damos atenção à cliente, fazemos questão de demonstrar o que estamos fazendo, tentando ensinar para elas como serem protagonistas em fazer alguns consertos!”, explicou Gabriela, lembrando que a intenção não é mudar o mundo e sim, acrescentar outras formas de analisar uma situação de desigualdades sem ser deselegante; “tivemos uma situação que a peça que a cliente comprou estava com defeito, e embora insistíssemos com ela, o filho falava que estávamos fazendo errado. Porque tem essa insegurança das pessoas acharem que eu não sei o que estou fazendo! Mas tenho certificados e sou formada em solda e eletricista, mas as vezes parece que isso não basta. Muitos homens que prestam esse serviço nunca colocaram o pé em uma escola, mas recebem mais aceitação do que nós”. “De repente até existe uma retaliação, mas a gente não enxerga isso. Nós queremos trabalhar, fazer o nosso melhor para a nossa cliente e aumentar a nossa rede”, completou Fernanda.

Existe uma preocupação muito grande tanto em preservar as funcionárias da empresa, quanto com a cliente, já que cerca de 90% da clientela é de mulheres, idosas que moram sozinhas. Gabriela disse que antes de ir a casa do cliente, algumas informações são confirmadas e que o serviço prestado só termina quando o local fica limpo. “Agora com o Covid-19 não deixamos de usar a máscara em momento nenhum, muito álcool em gel, a preocupação e o cuidado é tanto que estamos atendendo e não tivemos ninguém da nossa equipe contaminada”, ressaltou Fernanda.

As páginas do Instagram e Facebook já foram atacadas por haters, mas a própria comunidade seguidora do S.OS. Mana aparece para dialogar com posts abusivos. Segundo Fernanda após a publicação de um flyer reafirmando a condição da empresa ser de mulheres pretas, um comentário foi de que “era desnecessário falar que éramos pretas, que isso não implicaria uma diferença”. “A gente até chegou a pensar em responder algo através de nosso post pessoal, mas nem precisou, as manas que nos seguem conseguiram assertivamente consertar a situação de forma pacífica, dialogando”.

A cada atendimento, tem-se a certeza de que paradigmas estão sendo quebrados e cada nova casa vai se consolidando uma grande rede, cujos tijolos são a alegria no olhar dessas manas, a gentileza e atenção com cada detalhe durante a nossa conversa, mas que há a necessidade de fomentar parcerias para conseguir aumentar a estrutura e ajudar mais mulheres a se tornarem, não só donas do lar, mas protagonistas das suas histórias através de sua relação com os problemas de estrutura da casa, disso não há dúvida.  Será que na nossa região existe empresas preocupadas com o social para embarcar nessa jornada de reparar as realidades?


Suzana Guarani fala sobre futebol indígena feminino

Suzana Para’í Guarani:  

“Eu gosto de jogar com as meninas, correr, às vezes a gente escorrega e cai na lama. É paixão pelo futebol!”



Crédito da imagem/arquivo pessoal Suzana Para'í


 Por Mani Ceiba e Alvaro Britto

Flor Pequena do Mar é o significado do seu nome. Suzana Para,í é do povo Guarani, tem 22 anos e mãe de Lucas Tupã, de seis anos de idade. Mora na aldeia ‘Tekoa Ka’ Aguy Ovy Porã’ (Mata Verde Bonita em guarani), localizada há sete anos no bairro São José de Imbassaí, município de Maricá, região litorânea do Rio de Janeiro, onde habitam atualmente 120 indígenas. 

Suzana foi entrevistada na tarde do dia 9 de junho, de forma virtual devido à pandemia. O assunto era a prática do futebol feminino pelas mulheres indígenas, mas como boa prosa, o tema foi bem mais abrangente e cheio de informações. 

Joga mulher com mulher, com homem. O juiz é um homem porque nós mulheres queremos mesmo jogar e não apitar. Mas poderia ser mulher”

Essa paixão pelo futebol não é só da Aldeia Mata Verde Bonita nem apenas do povo Guarani.  Há vários torneios oficiais disputados por inúmeros povos indígenas em regiões de todo o Brasil. No Xingu, maior parque indígena do país, por exemplo, toda aldeia indígena possui ao menos um campo de futebol, independentemente de seu tamanho ou etnia. E na maioria delas, existe um campo de futebol apenas para as mulheres, que jogam todos os dias. As mulheres sempre tiveram participação importante no desenvolvimento das sociedades indígenas, e no futebol não é diferente, tendo os times femininos grande popularidade. 

Estudos comprovam que as origens do chamado “velho esporte bretão” estão longe da Inglaterra. Os britânicos apenas criaram no século XIX as principais regras atuais do futebol, que vem sendo praticado há muitos séculos antes de chegar à Europa. Na China, registros indicam que o pontapé inicial foi dado há mais de 2,5 mil anos. Já na América, o jogo de bola mesoamericano era praticado ao longo de mais de 3.000 anos por povos como os Astecas e mais tarde os Maias. Na Amazônia, há relatos de que etnias já desaparecidas praticavam o jogo de bola com os pés antes da invasão dos colonizadores.



“Desde pequena a gente já começa a jogar. Tenho duas irmãs de 6 e 8 anos, elas já começaram, querem jogar com as mais velhas, mas eu não deixo ainda”

Suzana Para,í joga como zagueira no time de futebol feminino da aldeia. Suas irmãs de 6 e 8 anos também já começaram. Querem jogar com as mais velhas, mas Suzana só deixa com as pequenas.  Ela disse que há uniformes nas cores rosa e azul, “mas usamos misturados e às vezes pegamos emprestado os azuis dos meninos”. 

Na aldeia Mata Verde Bonita há dois campos, um grande e outro pequeno para treinos de dois times de seis jogadoras cada. As traves do gol são de bambu e a duração dos jogos femininos é de 45 minutos.  O técnico do time é um indígena da própria aldeia. Mesmo os indígenas que não jogam assistem e torcem para os times, principalmente nos jogos ou treinamentos que acontecem no sábado ou domingo.  


“Temos jogos indígenas em abril, todos os anos. Vêm povos diferentes de muitas aldeias, de vários estados do Brasil. Vêm de ônibus. Meninos, meninas para jogar, arco-flecha, corrida de tora. É muito bom!”

Os jogos indígenas realizados anualmente em Maricá estão suspensos desde 2020 devido à Pandemia. Eles são organizados diretamente pelos caciques das aldeias que entram em contato e convidam os outros povos. Normalmente participam, além dos Guaranis, aldeias de Pataxós e Fulniôs do Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e do Nordeste.  A expectativa é grande para o retorno dos jogos após o fim do isolamento social.

Suzana Para,í é torcedora do Flamengo. E, segundo ela, a grande maioria dos indígenas da Aldeia Mata Verde Bonita também é adepta do rubro-negro carioca. Eles costumam assistir os jogos e torcerem juntos pelo Flamengo. Suzana disse que a maioria dos meninos, e também das meninas, sonha em ser jogador de futebol profissional. “Não só aqui, mas também nas outras aldeias. Eu jogo porque gosto muito mesmo, mas tenho outros planos”, afirmou a indígena guarani.  


“Nasci na aldeia Araponga em Paraty. Mudamos pra Camboinhas, em Niterói, quando tinha uns 7 ou 8 anos e depois viemos para cá”

A Aldeia foi criada há sete anos em uma área de 93 hectares doada pela Prefeitura de Maricá, que envia um caminhão pipa duas vezes por semana para a suprir o abastecimento de água potável da aldeia. “Para lavar as coisas e tomar banho, usamos água do poço”, informou Suzana.  Ela contou ainda sobre a existência de plantações de mandioca, milho, abóbora e banana, além da criação de animais e também a produção e comercialização de artesanato.

Há uma escola municipal na aldeia indígena para os que cursam o ensino fundamental de primeira à quinta série (os professores também ensinam a língua guarani). As séries seguintes são oferecidas em outras escolas fora da aldeia.  


“Aqui não aconteceu nada de grave na pandemia. Nós nos isolamos totalmente. Temos os mais velhos e queremos protegê-los porque ainda têm muita sabedoria para passar pra gente”

Todos os indígenas foram imunizados com as duas doses da vacina contra a Covid-19, mas mesmo assim a aldeia está fechada para visitas. Com isso, a venda de artesanato tem sido prejudicada. 

“Somos privilegiados aqui na nossa aldeia. Não corremos o risco de ser expulsos ou invadidos, somos protegidos por Nhanderu (Deus). Mas não é assim em todas. Muitas aldeias passam dificuldades. Passam fome. Eu visito outras aldeias, a gente faz doações. Porque temos que ter amor e proteger a todos os povos”, afirmou Suzana Para,í.

“Quero ser advogada para defender meu povo e todos os povos indígenas. Tô terminando meus estudos e depois vou fazer Direito”

Suzana costuma visitar outras aldeias, onde representa a sua. “Por causa disso, sou considerada uma jovem liderança”, revelou a indígena. E história familiar é que não falta. Sua tia Jurema Nunes Guarani é a atual cacique da aldeia, cargo que ocupa há dois anos, enquanto seu pai, que é professor, também já foi cacique da Mata Verde Bonita. 

E não é só. A atuação política também está nos planos de Suzana Para,í. Na eleição municipal de 2020, foi a primeira candidata indígena de Maricá, concorrendo ao cargo de vereadora pelo PDT.   Não conseguiu a vitória mas não desistiu. “Eu acho muito importante indígenas lutarem nesses espaços também”, defendeu a jovem guarani. 





Mais uma reportagem com uma entrevista explosiva onde o Pavio Curto abraça a pauta indígena, não para falar ou contar histórias de indígenas, mas para ouvi-los como protagonistas que são. A essência dessa reportagem é mostrar como os jogos são uma tradição indígena e o futebol como uma paixão dessa tradição é levada a sério por homens e mulheres da aldeia. Mulheres jogadoras de futebol na aldeia são respeitadas e gostam muito dessa prática.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

A arte em quarentena

 

Crédito das fotos/arquivo pessoal dos artistas


A criação artística em tempos de COVID-19 seguiu novos caminhos para continuar ativa

Por Caio Ribeiro e Letícia de Souza 

A pandemia de COVID-19 mudou a rotina de todos e, no meio artístico, não foi diferente. O setor cultural que abrange diversas manifestações artísticas – como a dança, a pintura, o teatro e o cinema, por exemplo – teve que se reinventar e adaptar-se à nova realidade. Para muitos profissionais, a internet tornou-se uma saída em meio as regras de distanciamento social, pois possibilitou que os trabalhos fossem apresentados ao público virtualmente. Hoje, seja por opção própria ou não, alguns profissionais ainda atuam de forma remota por meio das plataformas digitais, e suas produções, oferecidas em novos formatos. 

Pelo computador

Desde o início da pandemia, os artistas têm tido dificuldade para elaborar suas produções e levá-las até o público. O mundo digital tornou-se o único meio de dar continuidade aos trabalhos. É o caso de Mani Ceiba, moradora de Visconde de Mauá que trabalha com artes visuais há cerca de 20 anos. A artista plástica conta que seu trabalho foi afetado diretamente pelo cenário atual. “Eu participava de feiras de arte e tinha algumas lojas que vendiam peças, mas em virtude da pandemia, as feiras e as lojas fecharam. Apenas algumas voltaram a funcionar, mas ficam distantes e a entrega se torna mais difícil”, diz a artista. 

Mani também possui um ateliê em cerâmica, mas o trabalho foi paralisado devido à falta de retorno financeiro durante esse período. “Foi preciso deixar essa atividade, as queimas no forno de cerâmica gastam um botijão de gás por queima e, além disso, o ateliê tinha visitação para a venda das peças. O investimento em todo o processo durante a pandemia não compensa. Meu retorno financeiro torna-se bem menor, pois são as produções que possuem maior valor", afirma a profissional.

Em meio a situação atual, a artista passou a se dedicar mais às ilustrações digitais. Mani ressalta que o mundo virtual facilitou a distribuições dos materiais visuais. “Foi a melhor saída. É a maneira mais viável por envolver gastos menores, agilidade de entrega e a facilidade de fazer em casa. Antes, não me dedicava tanto a esse formato, mas nesse período foi necessário me adaptar”, comenta Mani. 

Longe do público

Cantora, compositora e multi-instrumentista autodidata. Samara Segades é uma artista independente, moradora de Cariacica (ES) e, assim como outras pessoas que atuam no meio musical, teve suas produções afetadas pela pandemia. A musicista diz que precisou recorrer aos meios virtuais para realizar suas apresentações. “Foi necessário levar a arte para o público, mas sem aglomerar. As lives foram o caminho para divulgar meu trabalho como cantora, que antes era feito por meio de shows e festivais em lugares pequenos”, conta a artista. 

Samara destaca que, mesmo diante do isolamento, pode alcançar um público maior em virtude das transmissões ao vivo que realizou pela internet durante esse período. “Com as lives, foi possível mostrar meu trabalho com mais amplitude. Só divulgava as atrações pelo Facebook e presencialmente, mas agora, “ao vivo” no Instagram e por meio das postagens no IGTV pude alcançar mais pessoas”, diz a cantora. 

Para a artista, a renda obtida por meio da música não é suficiente e, por isso, desenvolve atividades em outros campos para obter retorno financeiro. “A música não traz um sustento total, por essa razão, preciso de dedicar a outros trabalhos. Atuo como faxineira, leciono aulas particulares de filosofia e ensino religioso e, também, multiplico meu conhecimento com os instrumentos para quem deseja aprender. A internet tem me ajudado com o PicPay – aplicativo utilizado para obter doações em lives – mas não é o bastante”, ressalta. 

Mesmo após a pandemia, a artista diz que pretende dar continuidade aos novos formatos que ofereceu durante esse cenário. “Pretendo continuar com as lives. Minha intenção é, depois da pandemia, fazer as transmissões ao vivo dos shows presenciais por meio das minhas redes sociais”, conclui Samara.

Sentindo na pele

Alice Moura, de 25 anos, vive em Resende (RJ) e é tatuadora. Durante a pandemia, a artista precisou se reinventar para dar continuidade ao seu ofício - atividade arriscada para se exercer em um período no qual o distanciamento social se faz necessário, já que exige contato corporal direto com o cliente por até dez horas, dependendo do desenho. “Começamos a trabalhar com sistema de sinal, onde as pessoas pagam uma porcentagem adiantada para a criação de desenho exclusivos, e quando as coisas melhorassem, poderiam tatuar e pagar o restante”, conta a artista que mantém um estúdio de tatuagem, o Wonder Ink, com a noiva.

“Fazíamos videochamadas para conversar sobre a criação das artes com os clientes. Mas chegou um momento em que não era mais viável esperar as coisas melhorarem muito. As pessoas estavam ficando impacientes com o dinheiro já gasto e tivemos que retornar às atividades, com todas as restrições e cuidados possíveis. Hoje trabalhamos apenas com hora marcada e sem aglomerações dentro do estúdio”, completa.

Além das dificuldades geradas pelo distanciamento social, Alice ainda se deparou com mais um problema para exercer sua arte na pandemia: o aumento do valor dos materiais utilizados nos procedimentos das tatuagens. “Os valores dos materiais médicos básicos que preciso, como luvas, máscaras, aventais e produtos de higiene hospitalar, que aumentaram mais de 100%”, afirma.

Por isso, a tatuadora também acabou sentindo o impacto da pandemia em questões financeiras. Diante disso, Alice espera que a crise da gerada pela COVID-19 se encerre para recuperar o prejuízo. “Com os preços dos mantimentos lá em cima, estamos lutando para manter uma rotatividade de clientes e conseguir bancar as contas. A esperança é que melhore de novo logo”, finaliza.


segunda-feira, 31 de maio de 2021

Boiada passa na Câmara e deputados atropelam o licenciamento ambiental

Ilustração CRISTOVÃO VILLELA

POR ÁLVARO BRITTO

Você sabe. Para construir com segurança aquele puxadinho ou aquela meia água para abrigar alguém da família que aumentou, precisa regularizar a situação junto à prefeitura da sua cidade através de uma licença. 

Se por algum motivo tiver necessidade de uma poda drástica ou mesmo cortar uma árvore, precisará justificar e obter uma autorização do órgão ambiental local. Mesma coisa para construção próxima à margem de rios e lagoas ou de encostas. 

Exagero? Claro que não. O licenciamento ambiental parte do princípio que a natureza é um bem público e não privado e qualquer modificação tem impactos na vida do planeta. Portanto, toda obra ou empreendimento que interfira na natureza não pode ser decisão exclusiva do proprietário e sim do poder público, como representante do conjunto da sociedade. 

Há problemas? Com certeza. Nem sempre o poder público age em defesa do interesse público. Mas pelo menos nós temos instrumentos legais e institucionais para fiscalizá-lo, denunciá-lo e, como nós do Pavio Curto somos chegados, detoná-lo!


Grandes obras

Agora imagine uma grande obra ou empreendimento, como um hotel na floresta, um terminal portuário, uma hidrelétrica, uma indústria, um assentamento rural ou uma ponte sobre um rio. É óbvio que, em função do tamanho do impacto ambiental, precisa ser avaliada de forma muito criteriosa para obter uma licença. 

Ainda mais em uma época em que toda a humanidade – com raras exceções, como o governo negacionista brasileiro – compreende a encruzilhada em que está o nosso planeta, ameaçado pelo aquecimento global causado por um modelo capitalista predatório em que a natureza é utilizada como matéria-prima para exploração e acumulação. Daí a necessidade de muito mais rigor na concessão de licenciamentos ambientais. 

Acredite então. Foi justamente esse licenciamento ambiental que a maioria da Câmara dos Deputados resolveu flexibilizar ao aprovar, no dia 13 de maio, o texto principal do relatório do deputado Neri Geller (PP-MT) sobre o Projeto de Lei (PL) nº 3.729/2004, da Lei Geral do Licenciamento Ambiental. 

O PL restringe, enfraquece ou, em alguns casos, até extingue parte importante dos instrumentos de avaliação, prevenção e controle de impactos socioambientais de obras e atividades econômicas no país. Trata-se da pior e mais radical proposta já elaborada no Congresso sobre o assunto e que, na prática, torna o licenciamento convencional uma exceção, na avaliação da Frente Parlamentar Ambientalista, de pesquisadores e organizações da sociedade civil. 

Para eles, se transformado em lei, o projeto pode produzir recordes de desmatamento em série, em especial por eliminar restrições à destruição da floresta, em geral estimulada por grandes obras de infraestrutura na Amazônia, como estradas e hidrelétricas.


Entenda os principais problemas do PL 3.729/2004

1. Dispensa de licenciamento para agricultura, pecuária e silvicultura, além de mais 13 tipos de atividades com impactos ao meio ambiente.

2. Brecha para disputa entre estados e municípios, que poderão estabelecer regras de licenciamento menos rígidas do que as de outras unidades da federação para atrair empresas e investidores.

3. Licença autodeclaratória (LAC), emitida automaticamente sem análise prévia de órgão ambiental, passa a ser a regra. Na prática, torna o licenciamento exceção ao invés de regra.

4. Restrições à participação popular no licenciamento, inclusive das comunidades impactadas por empreendimentos.

5. Ameaça às Unidades de Conservação, Terras Indígenas não totalmente demarcadas (41% do total) e Territórios Quilombolas não titulados (87% do total), porque a análise dos impactos dos empreendimentos sobre essas áreas não será mais obrigatória.

6. Restrição à participação no licenciamento de órgãos como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Funai, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Ministério da Agricultura e Ministério da Saúde.

7. Bancos e outras instituições que financiam os empreendimentos não terão mais nenhuma responsabilidade socioambiental, ou seja, caso haja danos ao meio ambiente ou tragédias, como a de Brumadinho, eles poderão dizer que não têm nada a ver com o problema.

8. O PL não trata de qualquer questão ligada às mudanças climáticas.


Conheça algumas avaliações sobre o PL

“O projeto, se também for aprovado no Senado, ainda mais sem a participação dos povos e comunidades impactados, constituirá frontal violação aos direitos constitucionais dos povos indígenas, especialmente de seus direitos territoriais. Seu objetivo é impor severos impactos às Terras Indígenas, assim como aos Territórios Quilombolas, Unidades de Conservação e áreas de proteção, bem como ao Patrimônio Histórico e Cultural, sem que sequer sejam objeto de avaliação de impacto ou de medidas de prevenção, mitigação e compensação”. 

Nota pública assinada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Coordenação de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), além de mais 24 redes e organizações. 


“É uma afronta à sociedade brasileira. O país no caos em que se encontra e os deputados aprovam um projeto que vai gerar insegurança jurídica, ampliar a destruição das florestas e as ameaças aos povos indígenas, quilombolas e Unidades de Conservação. Assistimos, hoje, a uma demonstração clara de que a maior parte dos deputados segue a cartilha do governo Bolsonaro e vê a pandemia como oportunidade para ‘passar a boiada’ e atender a interesses particulares e do agronegócio”. 

Luiza Lima, Greenpeace Brasil


“É a Lei do ‘Deslicenciamento’. Esse projeto instala no Brasil o autolicenciamento ambiental como regra. Para dar apenas um exemplo, dos dois mil empreendimentos sob licenciamento ambiental em curso na capital do Brasil, 1.990 passarão a ser autolicenciados a partir do primeiro dia de vigência da nova lei”.

 André Lima, Instituto Democracia e Sustentabilidade


“O texto aprovado é tão nefasto que, de uma só vez, põe em risco a Amazônia e demais biomas e os recursos hídricos, e ainda pode resultar na proliferação de tragédias como as ocorridas em Mariana e Brumadinho e no total descontrole de todas as formas de poluição, com prejuízos à vida e à qualidade de vida da população. Por fim, pode se transformar na maior ameaça da atualidade às áreas protegidas e aos povos tradicionais”.  Maurício Guetta, Instituto Socioambiental


“Com a aprovação da ‘Mãe de Todas as Boiadas’, a Câmara dos Deputados, sob a direção do deputado Arthur Lira, dá as mãos para o retrocesso e para a antipolítica ambiental do Governo Bolsonaro. É o texto da não licença, da licença autodeclaratória e do cheque em branco para o liberou geral. Implodiram com a principal ferramenta da Política Nacional do Meio Ambiente. Quem pagará a conta da degradação são os cidadãos brasileiros, que vão sustentar a opção daqueles que querem o lucro fácil, sem qualquer preocupação com a proteção do meio ambiente e com as futuras gerações. Judicialização e insegurança jurídica são o que eles terão como resposta”.

 Suely Araújo, Observatório do Clima


“O texto não considera a Avaliação Ambiental Estratégica, o Zoneamento Econômico Ecológico e a análise integrada de impactos e riscos, além de excluir o controle social dos princípios do licenciamento ambiental. Dessa forma, afeta diretamente as políticas públicas de recursos hídricos e unidades de conservação”.

 Malu Ribeiro, Fundação SOS Mata Atlântica


“O texto aprovado produzirá uma avalanche de problemas sociais e ambientais não avaliados e não mitigados por empreendimentos de significativo impacto ambiental. Os órgãos ambientais não terão condições de se manifestar a tempo, pois o prazo é impraticável, além de estarem sucateados e silenciados. Os parlamentares aprovaram um desastre que precisa ser revertido no Senado, ou no STF”.

 Alessandra Cardoso, Inesc


“Lamentável o desmonte do licenciamento ambiental. Um texto enviesado, discutido a portas fechadas com governo, ruralistas e industriais, que ignora o princípio da precaução e atropela os fundamentos do direito ambiental. É repleto de inconstitucionalidades e vai gerar enorme insegurança jurídica para os empreendedores. Liberar geral para depois responsabilizar é um contrassenso total, que o digam os povos e comunidades tradicionais impactados em todo o país, as vítimas de Brumadinho e Mariana”.

 Guilherme Eidt, ISPN.


Vamos detonar juntos esse PL?

O Projeto de Lei (PL) nº 3.729/2004 segue agora para o Senado. Se sofrer mudanças, volta a ser debatido na Câmara, mas apenas as alterações serão analisadas. Se for aprovado pelos senadores como está, segue para sanção presidencial. Por motivos óbvios, nada a esperar de positivo do presidente que não acredita em aquecimento global. 


Portanto, o caminho da nossa mobilização e pressão para barrar esse PL é o Senado Federal. Lembrando que vários senadores disputarão a reeleição e mesmo outros cargos no pleito de 2022.  Para conhecer e pressionar os senadores acesse: https://www25.senado.leg.br/web/senadores  e acompanhe o Pavio Curto nas redes sociais. 


Saiba como votaram os deputados federais do RJ

Contra o PL  - 10

Alessandro Molon (PSB-RJ) -votou Não

Benedita da Silva (PT-RJ) -votou Não

Chico D´Angelo (PDT-RJ) -votou Não

Clarissa Garotinho (PROS-RJ) -votou Não

David Miranda (PSOL-RJ) -votou Não
Glauber Braga (PSOL-RJ) -votou Não

Jandira Feghali (PCdoB-RJ) -votou Não

Marcelo Freixo (PSOL-RJ) -votou Não

Paulo Ramos (PDT-RJ) -votou Não

Rodrigo Maia (DEM-RJ) -votou Não


A favor do PL  - 28

Altineu Côrtes (PL-RJ) -votou Sim

Carlos Jordy (PSL-RJ) -votou Sim

Chiquinho Brazão (Avante-RJ) -votou Sim

Chris Tonietto (PSL-RJ) -votou Sim

Daniel Silveira (PSL-RJ) -votou Sim
Daniela Waguinho (MDB-RJ) -votou Sim

DelAntônioFurtado (PSL-RJ) -votou Sim 

Dr.Luiz Antonio Jr (PP-RJ) -votou Sim

Felício Laterça (PSL-RJ) -votou Sim

Gelson Azevedo (PL-RJ) -votou Sim

Gurgel (PSL-RJ) -votou Sim
Helio Lopes (PSL-RJ) -votou Sim

Hugo Leal (PSD-RJ) -votou Sim

Jorge Braz (Republican-RJ) -votou Sim

Juninho do Pneu (DEM-RJ) -votou Sim

Lourival Gomes (PSL-RJ) -votou Sim

Luiz Lima (PSL-RJ) -votou Sim
LuizAntônioCorrêa (PL-RJ) -votou Sim

Major Fabiana (PSL-RJ) -votou Sim

Márcio Labre (PSL-RJ) -votou Sim

Marcos Soares (DEM-RJ) -votou Sim

Otoni de Paula (PSC-RJ) -votou Sim

Paulo Ganime (Novo-RJ) -votou Sim

Professor Joziel (PSL-RJ) -votou Sim

Ricardo da Karol (PSC-RJ) -votou Sim

Rosangela Gomes (Republican-RJ) -votou Sim

Soraya Santos (PL-RJ) -votou Sim
Vinicius Farah (MDB-RJ) -votou Sim


Faltaram a votação -  8

Aureo Ribeiro (Solidaried-RJ) 

Christino Aureo (PP-RJ)
Flordelis (PSD-RJ)

Gutemberg Reis (MDB-RJ)

Otavio Leite (PSDB-RJ)
Pedro Augusto (PSD-RJ)

SóstenesCavalcante (DEM-RJ)

Talíria Petrone (PSOL-RJ)



Referências: Instituto Socioambiental (ISA); Observatório do Clima; Congresso em Foco